domingo, 16 de dezembro de 2012

Último diálogo


- Que negócio engraçado, né, dona? A senhora chegou e de repente ficou tudo frio. Ainda bem, andava fazendo um calor do cão esses tempos.
- Sinto muito.
- Não precisa sentir nada não. É melhor assim. Aonde vamos?
- A gente já vai chegar, fecha os olhos, é melhor.
- E como é lá? É bonito? Ouvi dizer que lá o sofrimento acaba.
- É bonito sim, fecha os olhos e espera, já já chegamos.
- E por que demora tanto?
- E por que você faz tanta pergunta?
- Me desculpe, não queria te irritar. É que eu to com medo, não conheço esse lugar. Não conheço ninguém que voltou de lá.
- E é justamente essa a intenção, não voltar. Ainda dá tempo de desistir, mas não garanto que ficar por aqui será melhor. O que você quer?
- Eu quero ir. Se eu ficar por aqui, nada disso vai mudar. Eu quero fazer algo pra mudar, tem que ser diferente, um dia isso tem que acabar.
- Então feche os olhos e fique quietinho, vai passar. Lá tudo passa, confie em mim. Vamos?
- Vamos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Me dueles


Me dueles
porque no vendrás
porque ya te fuiste
porque no seremos

Me dueles
y es un dolor sin medicina
es herida que sangra
es grieta sin fin

Me dueles
y no sé por qué
por qué dejo que sea así
por qué me dejé involucrar

No sé por qué me dueles
Y me dueles simplemente porque no sé

ps.: Acho lindo em espanhol as coisas nos encantarem, nos gostarem, nos doerem, nos caírem bem. :)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

2012


OOOOOOO DILMA, A CULPA É SUA, HOJE A AULA É NA RUA ♪
EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA, SE VOCÊ PAGA, NÃO DEVERIA! ♪
QUEM NÃO PULA É REITORIA ♪
/ \ trilha sonora de 2012
2012. Que ano do cão! Poderia resumir em 3 palavras: peleguei, grevei, abstenções. (Ou em outras 3: PUTA QUE PARIU!) Porque foi isso que fiz durante 5 meses. Cada semana era uma dúvida diferente, um voto diferente na assembleia.
2012 foi o ano das minhas maiores notas na faculdade, talvez a greve tenha feito algum milagre. O Lar! Hercle! Foi o ano também em que eu virei amiga da criatura mais simpática e delicada sóquenão da Unifesp, a Raquel (e vê se para de me imitar, menina chata) e adotei um bixo =D. Continuei andando com meus amigos lindos e inteligentes, rindo pelo campus e indo pro Pimentas só pra comer no bandejão!
Ainda falando da minha linda, amada e sem teto Unifesp, a mais linda *--* (com os profs mais lindos também), graças a ela pude, quase que de graça, ir no ENEL, em Florianópolis - a ilha da magia! Encontro maravilhoso, onde conheci gentes lindas da Paraíba, do Rio, do Amazonas! Vi pela primeira vez um mar azul! Foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida!
Tudo isso só me faz ter certeza de que to no curso certo pra mim.
Fui também pra Tiradentes e me arrependi de ter dormido :( mas ok, superei já. haha Que cidade linda! AAAAAOOO Minas Gerais!
Fiz a maior cagada da minha vida este ano também: não comprar um colchão inflável ~entendedores entenderão~
Arrumei um emprego de... PROFESSORA! Aliás, um não, dois! Apesar dos apesares, foi em 2012 que me tornei professora, a coisa que eu quero ser a vida inteira, ou pelo menos até quando eu estiver feliz.
Me surpreendi muito comigo mesma. Na maioria das vezes pensei que reagiria de uma forma diante de uma situação e reagi completamente diferente. E isso fez com que eu me fodesse e muito. Mas a gente só levanta quando cai.
Perdi mais alguns amigos pelo caminho, mas um dia eu os acho de novo. O importante é que os que mais me fariam falta se fossem ainda continuam do meu lado =D Espero que assim seja em 2013.
Fui pela primeira vez numa balada normal e odiei.
Fui pela primeira vez em uma casa de Salsa e amei! Não adianta, esses ritmos latinos me cativam.
Ganhei os presentes mais lindos dos meus amigos, não tem coisa melhor do que abrir um embrulho e ver ali todo o cuidado e o carinho que a pessoa teve pra escolher. A gente sente quando um presente é dado não por obrigação, mas por que a gente bateu o olho no negócio e na hora lembrou da pessoa. Sou emo, sou canceriana.
2012 foi o ano dos extremos. Me estrepei ao extremo, mas aconteceram coisas extremamente emocionantes, do lado bom. Como esquecer eu e a tal da Ana Júlia correndo pela UFSC porque tava tocando Titanium, as risadas no bar da esquina (que tem outro nome, mas esqueci), as manifestações...
Fiquei mais esquerdista, mais feminista, mais contestadora. E mais turrona também, ou seja, to mais consciente e, portanto, mais chata.
Espero que em 2013 as coisas boas continuem como estão e que eu tome coragem pra mudar as que não estão tão boas assim. Veremos (:


domingo, 9 de dezembro de 2012

Micro-contos soltos


Entregou-se a ele, às palavras, acreditou em todos, nele, na amiga do trabalho, na cartomante. Acabou ali, sentada na areia da praia num dia de chuva.
Nem toda Macabéa tem o mesmo fim.


- Poxa, olha ali, do outro lado da rua!
- O quê? Onde? O que você tá vendo?
- Olha ali, no carro, se aproximando!
O amor nem sempre vem de carona.


Todos os dias se lembrava de pedir para esquecê-lo. Esqueceu que para esquecer tinha que parar de lembrar.


Risos que chegavam ao meu ouvido de forma lenta, seu olhar me hipnotizava, tudo girava, os cabelos esvoaçantes pairavam no ar. Eu estava embriagado. Encontrei você.

sábado, 1 de dezembro de 2012


Palavras não ditas
malditas
que ainda me dão esperança
espero
gritando no silêncio
alheio
a todas as suas covardias
fujo (a) enquanto puder
para que estejamos afastados
quando essa dor explodir

segunda-feira, 19 de novembro de 2012


Disse que nos vi passar
disse que quase estivemos lá
disse também que não faltava amor
mas só disse

Teve dias que cansei de esperar
dias que chorei até dormir
dias que meu sorriso não saiu do lugar
mas dias também chegam ao final

Não sei porque fui insistir
nesse plano que de tão covarde
chega a ser até infantil
e agora o amargo é todo meu

Fui inventar de te dividir
era tudo, era muito pra mim
era tanto que tive que negar até o fim
Ainda bem que arrependimento é fácil de remediar

domingo, 14 de outubro de 2012

ignorância


Palavras escapam
quando tento prendê-las a você
porque já aprenderam
(eu ainda não)
que isso não levará a nada

Mesclam-se, atiram
correm, embaralham-me
porque já aprenderam
(eu ainda não)
que se esconder é uma boa jogada

E assim as encontraram
associadas a outros tão diferentes
porque já aprenderam
(eu ainda não)
que está noutros braços a paixão procurada

Eis que me perguntaram
por que eu não as amarro a meu modo
é porque elas já aprenderam
(eu ainda não)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pequenos erros em pequenos contos – parte 1


Tão tão platônico que tratou de contar ao outro para ele viver também a fantasia.








        Ela quis o que era meu. Entreguei sem nem contestar.







        Ela some, ele procura, ele some, ela espera. Ele sempre aparece. Ela tem vontade de não aparecer nunca mais. Ele procura. Ela volta. Ela não procura. Ele volta.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aquela noite


        Eu estava entorpecida pelo álcool e isso me agradava. Anestesiada, tinha a sensação de que se despencasse, alguém me seguraria.
        Procurando pela pessoa certa no lugar errado, encontraria? Havia tontos e estonteantes ao meu redor, a luz piscava, impossibilitando-me de enxergar direito quem se aproximava.
        Passei tantos meses em braços errados que não me importava em perder mais alguns minutos, meses por que eu quis, eu que sustentei aquilo sozinha, depois da terceira semana, gostei mais dele do que de qualquer outra coisa, mais dele do que de mim. E agora eu dançava, sem ritmo nem direção, tentando me encontrar bem longe de onde havia me perdido.
        Músicas que não faziam sentido, mas a minha vida também não fazia naquele momento. Tropecei e um braço me impediu de ir ao chão. Segurei-me ali como se fosse a última oportunidade.
        Quando os olhos se encontram e a música se torna inaudível por conta das batidas do coração, é sinal de que é hora de voltar para casa. Ou é hora de pegar mais uma bebida no bar.

domingo, 19 de agosto de 2012

Conversa com um desconhecido


- Você tem medo de alguma coisa?
- Quê? – Respondi de volta. Estava sentada na praça suja, cheia de garrafas de vodka quebradas no chão, de cápsulas de plástico onde há algumas horas havia cocaína, eu destruída, num cenário igualmente destruído, sentada perto de um desconhecido, que agora tentava puxar assunto.
        - Se você tem medo... – Ele baixou o tom de voz.
        - Como assim? Medo de bicho, essas coisas?
        - Também. Oh, eu tenho medo de lagartixa, de ficar muito doente e de abandono.
        - Eu não tenho medo de bicho... Eu tenho medo de ficar cega, apesar de fingir que não vi as coisas, de vez em quando. Tenho medo nunca mais poder falar com ele também.
        - Tá aqui por causa dele, né?
        - Mais ou menos. Ele não quer mais me ver, com medo de perder a amizade, eu acabei perdendo tudo, mas foi por escolha minha, eu que plantei tudo isso. A gente colhe o que planta, acho que foi na catequese que ouvi isso. Tá aqui por que ela te abandonou? – Sentei no mesmo banco que ele. Olhando mais de perto, dava pra ver cicatrizes em seu pescoço, perguntei-me se ele havia tentado se matar. Cada cicatriz conta uma história, mas não quis perguntar ao moço se a dele era essa.
        - Mais pra mais do que pra menos. Plantei amor, colhi decepção, te enganaram na catequese. – Ele riu amargurado. – To aqui na esperança de vê-la passar, mesmo que seja com outro. Quero encarar aqueles olhos pela última vez, tendo a certeza de que é a última vez. Nem isso ela me deu.
        - Ele me disse que aquela seria a última vez que eu ouviria sua voz. Foi por telefone, não entendi muito bem o que eu fiz, mas sempre perdi em silêncio. Vim aqui pra ver se alguém gritava comigo, ver se alguém podia me fazer correr atrás dele, implorar, mas só achei cacos espalhados pelo chão. E achei você.
        Pisando nos pedaços de vidro, embriagados pela situação e pelo caos, de mãos dadas, deixamos alguns medos naquele banco, não tivemos coragem de olhar pra trás.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


Dissolvi
e não consigo me reorganizar
Ajoelhei
mas quem deve me perdoar?

Colorindo corações
prendendo-os à imaginação
Deixei que voassem livres
temendo que caíssem ao chão

Olhe pra trás
é lá que está o fim
Mas o que queria mesmo é que
você soubesse viver sem mim

Quem se afasta
passa a enxergar melhor

quarta-feira, 15 de agosto de 2012


Entre contos
Desencontros
Que desencantam
Entrelaçam
Nos prendem
Em palavras escritas
(não-ditas)
Que agora me incompletam
E como sentir falta
do que eu nunca tive?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Pra melhor amigue ♥


Hey, menina. Grite, chore, corra, se esconda, chore mais um pouco. Porque tudo isso faz parte do seu show!
        Se afogue, ressurja, perca-se, ache-se e só olhe pra trás quando quiser, quando achar que pode, quando achar que deve.
        Corra mais rápido e tape os ouvidos pro que te disserem nessa corrida. Se escute. É só isso que espero de você.
        E nunca se esqueça de que eu vou dar as mãos pra você quando você precisar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Falta


Talvez o que falte pra você
Seja um pouco de amor
Um pouco de calor
Uma colherinha de açúcar no café

Pode ser que lhe faltem braços abertos
Quando você queira apenas abraçar
Uma vontade louca que venha sem avisar
Um empurrãozinho que lhe derrube num poço de ilusões

Acho que faltam sonhos
Planos, viagens, verdade
Falta largar esse jeito covarde
(onde foi que você se perdeu?)

Ou apenas falte vontade de amadurecer
Olhos que saibam enxergar
Largar o medo de se jogar
(quando será que você vai se encontrar?)

sábado, 14 de julho de 2012

Devaneio 2


Deixe-me aqui, assim, instável, vulnerável ao mundo, que eu acho que sei me cuidar, minhas certezas são incertas, minhas atitudes também, mas eu vou tropeçando e acertando, fazendo mais o primeiro que o segundo, mas olha só, você nunca me viu caída, não precisa se preocupar, eu aprendi a me erguer sozinha, eu preciso da tua mão, mas se ela não estiver aqui, tudo bem, eu já aprendi a me virar assim, eu já cansei de olhar pro lado e perceber que você não está lá, aí eu me acostumei a estar sem que você esteja, a apostar todas as minhas fichas sabendo que não terei recompensa, pode até ser que doa, mas a dor não é minha inimiga, é companhia, não me ponha contra a parede, eu não estou exigindo nada de você, prefiro que não queira saber nada de mim, deixe-me aqui, assim, como estou, pode ir, meus caprichos eu mesma os cumpro, minhas crises eu mesma as aguento, eu sou só um grão de areia, igual a milhares por aí, deixe-me escapar pelos seus dedos, eu gosto dessa liberdade, veja bem, já passei por muitas tardes sem sol, você pode roubá-lo de mim, não vai me fazer falta, colora os dias de outras, vivo bem no preto-e-branco, deixe-me aqui enquanto vejo meu projeto de vida passar, sou espectadora de mim e prefiro ver esse programa só.

sábado, 7 de julho de 2012

Devaneio um


Você só queria paz e eu só queria amor (e amar). Um coração sozinho apenas sustenta relações platônicas e eu corro perigo quando você esconde seus sentimentos.
É perigoso sim, eu construo emoções sobre areia movediça e projeto um você que tem grandes chances de existir, só que dentro de outra pessoa, que eu não sei onde está, que eu não consigo encontrar, porque só tenho olhos pro passado e o passado é você.
Você, que eu tanto tento deixar pra lá e que se arrasta atrás de mim, enigmático, cheio de indiretas, contradizendo-se mais a cada atitude (não) tomada.
Falta de atitude que me esgotou ao ponto de me fazer pó em forma de prosa, que pode ser pra você, se você quiser assim.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras de papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?



- Paulo Leminski



domingo, 1 de julho de 2012

Coisas que quero esquecer - Parte 2


Coisas que quero esquecer – Parte 2

“No quiero recordarte más, no me hace bien.”

            Descendo a Rebouças – com seu trânsito infernal – me lembrei de você e de como você odiava andar de ônibus. Fingia tonturas e enjoos e falava alto o quanto estava incomodado por estar ali.
            Eu sempre andando por toda cidade sozinha, já que você preferia ficar em casa, com o ar-condicionado ligado, jogando videogame. Maldito destino, fui me apaixonar por um autêntico burguês.
            Lembrei porque toca na rádio “Sozinho”, do Caetano, aquele que você só não odiava mais que ônibus lotado, aquele mesmo, que você dizia que eu só gostava dele porque faço Letras e é pré-requisito gostar para entrar no curso.

“Fala que me ama, só que é da boca pra fora.”

Preferia que não tivesse dito nada. Somos tão diferentes e eu fui a única que não quis enxergar. Pensei que tivéssemos diferenças que se completassem e não que se excluíssem. Pensei porque penso demais e ajo de menos e é por isso que ficamos tanto tempo juntos (pra mim qualquer tempo desperdiçado é muito tempo).
É, realmente o trânsito nessa cidade está cada dia pior, claro que é mais fácil dizer isso dentro do carro do seu pai do que dentro do ônibus, mas hoje eu consegui sentar na janela e você sabe que eu amo devanear quando consigo um lugar aqui. Já saíram tantas declarações inesperadas só porque eu estava sentada na janela, né? Pena que eu não sinto mais nada do que disse.
E o que você respondia? “Louca.” E eu cantava pra você “Loca, me gustás así de loca, inestable y caprichosa...” E você me mandava parar de idolatrar esses argentinos babacas, fazendo-me chegar a uma simples conclusão: o único babaca da história sempre foi você.
Dizia que eu te diminuía numa tentativa de mascarar uma personalidade manipulada de acordo com os interesses de quem lhe convinha (nunca com os meus, ainda bem), querendo que eu me sentisse culpada por não conseguir conversar com você nada além de assuntos tediosos e rotineiros.
Enquanto balanço as pernas ansiosa para chegar em casa (que merda, ainda tá no cruzamento com a Faria Lima) me controlo para não ficar nauseada, única sensação que consigo ter ao lembrar de você.
Por isso são coisas que quero esquecer, são músicas, cenários, rotinas que lembram você e lembram em quantas janelas eu já não me apoiei para não desabar e chorar ali mesmo dentro do ônibus lotado. Lágrimas que guardei por você não merecer nada que venha de mim, nem meus passeios loucos, nem meus devaneios loucos nem eu louca, louca por você.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ah, se eu pudesse...


Ah, mas se eu pudesse te levar comigo... Te arrastaria a todos os lugares, te faria pensar, te encheria de ideologias equivocadas, te arrancaria os sapatos importados e os jogaria longe de nós. Te faria correr pela areia descalço atrás de mim, te levaria ao mar, ao céu, te faria perder a consciência, impregnaria seu cheiro em mim. Te faria colecionar sabores, amores, cores, dores... Te arrancaria das costas todos esses pesos que te fazem curvar, te faria correr atrás de todos os teus sonhos, te tiraria o medo de arriscar, quebraria a cara contigo se fosse preciso. Te encheria de mimos, de carinhos, de liberdade, de vontade. Ah, se você viesse comigo...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

7 semanas e meia de amor


7 semanas e meia de amor
Eu fui do céu ao inferno
Eu vi durar menos que uma chuva de verão
O que acreditava ser eterno

Amo-te de noite
Amo-te de dia
Desejo-te de todas as formas
Prosa, rima ou poesia

Gritos de raiva, cacos de vidro,
resquícios espalhados pelo chão
Lágrimas insistentes,
tentando rejuntar o coração

Você na sua casa sozinho
eu na minha desacompanhada
Talvez um dos dois
esteja na casa errada

Leve-me ao teu paraíso
Leve-me a qualquer lugar
Prenda-me, solte-me, prenda-me de novo
Abrace-me até que não me sobre mais ar

Tão frio e tão doce
ardiloso e distante
Quero que doa, que incendeie
que dure mais que um instante

Fechei os olhos
Tapei os ouvidos
Para lembrar com ricos detalhes
os momentos já idos

Mas acabou e eu não quis ver
Acabou e não tenho mais sobre o que escrever

domingo, 24 de junho de 2012

Coisas que quero esquecer


Subindo as escadas do metrô Paulista me lembrei de você e de como você odiava fazer esses passeios cult comigo. Livrarias, cafés, museus, filmes esquisitos, eu sempre inventava algo e te obrigava a ser companhia.
Lembrei porque estou indo na livraria, atrás de um livro pra faculdade e toda vez que fazíamos isso, gastávamos horas, eu insistia em procurar o livro por contra própria ao invés de pedir ajuda, só para folhear um por um, enquanto você estava esparramado nas poltronas da área infantil, querendo me matar.
Lembrei também porque estou usando o moletom que você me deu, que está até meio gasto de tanto que uso. Tem um pouco de você nele, é por isso que uso tanto, porque me acostumei a ter um pouco de você aonde vou.
Nossa, quantas escadas tem essa estação, né? Quantas vezes te fiz descer aqui, para me acompanhar em passeatas, te fiz gritar coisas com as quais você nem concordava, queria a todo custo despertar o revolucionário que (não) havia em você... Você se irritava quando eu não fazia algo que você queria e ainda por cima gritava “antes puta que submissa”.
São coisas que quero esquecer, são coisas que lembram você, que me fazem sofrer e me acorrentar para não ir correndo atrás de quem me fez tão mal, abrindo mão de todas as promessas que fiz frente ao espelho.
Me dizia radical, louca, ideológica, pseudo-intelectual, pseudo-feminista, enchia a boca para dizer que eu pensava demais, era metódica demais, que eu era independente demais e não prestava para casar (mas quem te disse que eu queria casar?) me enchia de adjetivos clichês para criticar minhas atitudes que, está bem, confesso, também eram um pouco clichês, mas que nunca te machucaram.
São palavras que quero esquecer, chavões que lembram você, que me fazem sentir náuseas e me arrepender por ter dito tantas vezes que amava você, que não merecia nada de mim. Nada. Nem minhas ideias revolucionárias, nem meu radicalismo, nem minhas explicações filosóficas nem minhas vontades loucas de você.

domingo, 10 de junho de 2012

Muros


Eu o vi na assembleia. Ele de preto, concordando com o que estava sendo dito. As inscrições para o segundo bloco de falas abriram e ele correu.
“Derruba, derruba, derruba o muro, a universidade é de todo mundo.”
Eu a percebi olhando pra mim, claro que percebi, ela não tirava os olhos, as amigas falavam algumas coisas, provavelmente comentavam como o cara que tá conduzindo a assembleia é bonito. Droga, sempre fico nervoso antes de falar.
Olha lá, olha lá! Ele vai falar! Eu cutuquei as meninas e meus olhos brilharam, esperando o que viria.
Terminei minha fala e os aplausos dela eram os mais audíveis. Tudo nela era exagerado, a risada, o tom de voz, principalmente quando eu estava perto. Os gestos dela ficavam mais expansivos quando ela me via, mas eu fingia que ela não estava ali, não conseguia encará-la.
Lembro do dia em que estava gritando feito retardada na assembleia, pulando e apoiando os grevistas, ele estava bem na minha frente, mas eu não estava dando a mínima. Ele sorriu pra mim, me achando uma imbecil de marca maior.
Nunca sabia de que lado ela estava, acho que nem ela deveria saber. Com o passar das semanas, a via cada vez menos na faculdade, era normal, a gente desanima mesmo. Sentia falta de vê-la cantando e dando risada pelo pátio com os amigos.
- Oi. – Sorriso
- Oi. – Sorriso maior ainda
- Complicada essa situação, né?
- Ô... Mas a reitoria deve atender nossas reivindicações em breve, pelo menos parte delas.
- Espero...
- É...
- Bom... Eu vou pra biblioteca. Tchau.
- Tá. Tchau
Decidiram ocupar o campus e meu coração foi à boca quando escutei que ele estava no meio. Não podia deixá-lo lá, eu tinha que fazer alguma coisa.
Estávamos acampados, chovia e fazia frio. Eu não parava de pensar nela um só segundo, mas não queria que ela estivesse ali comigo, porque estaria colocando-a em risco.
No dia seguinte, fui ao campus ver a situação. Cenário de guerra. Pichações, barracas, carteiras espalhadas por todos os lados, fruto de piquetes colocados para impedir a circulação de funcionários.
Avistei-a com sua bolsa rosa, olhando cada canto da universidade, impressionada com o que via. Sei que ela estaria ali, se não fosse tão cheia de medos e incertezas. Ela saiu pelo portão, passando por mim sem me olhar.
Dez minutos depois escutei sirenes e observei sete carros da polícia subindo a rua. Todos pararam em frente à universidade. Não me contive e saí correndo, como se pudesse evitar o que estava por vir. Era óbvio que isso aconteceria a qualquer momento. Não queria que ele fosse levado. Parei e fiquei assistindo, com os olhos marejados. Eram meus colegas sendo levados como criminosos, não entendia que crime haviam cometido e não tinha coragem suficiente para me unir a eles. A ele. Que agora era colocado dentro do carro e me olhava. Eu sentia orgulho dele, eu sentia medo por ele, parecia que eu já tinha visto isso antes. Eu comecei a chorar.
Vê-la com a maquiagem borrada e com a cara de terror me fez querer fugir e abraçá-la. Havia mais de um policial para cada estudante e estávamos todos de cabeça erguida, mesmo sendo levados como animais ao abatedouro. Ela sentou na mureta e permaneceu imóvel, apenas as lágrimas escorriam, encarava a viatura em que estava. Estávamos presos pelo olhar, eu sem esboçar nenhuma reação, ela parecendo que lhe faltava o ar.
As viaturas partiram uma a uma, mas a quarta levava meu coração junto. Por temer o que podia acontecer com ele, não conseguia me mexer, mas tinha que ir para casa. Esperarei passar o medo, enquanto isso fico aqui, escorada nos muros da universidade que ele tanto queria derrubar. 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Perspectivas pessimistas sobre a vida


Odiava os amanheceres
mas deixei a cortina aberta
De dia vi o que não queria ter visto
Era melhor ter vivido pra sempre na escuridão

Evitava espelhos ao máximo
mas um dia resolvi encarar um
De novo vi o que não queria ter visto
Era melhor ter-se feito de cega a vida toda

Não ligava a TV de maneira alguma
mas quis ver uns clipes novos
jornal: mortes, corrupção, vi o que não queria ter visto
Era melhor ter jogado essa porcaria no lixo

Largava as fotografias no fundo da gaveta
mas um dia decidi resgatar as memórias
Passado, alegria, você, vi o que não queria ter visto
Era melhor ter enterrado essas fotos no jardim

Não escrevia mais poemas já fazia algum tempo
mas resolvi voltar a escrevê-los
Mágoas, saudades, revi sentimentos que não queria ter revisto
Era melhor ter rasgado esse poema

domingo, 22 de abril de 2012

Alma


Toc Toc Toc
A sorte bateu a minha porta
Fingi que não ouvi
Pro outro lado corri

- O que são aquelas malas?
- Eu que fiz.
- Mas você não tem como ir embora sem mim!
Risos e foi assim que perdi minha alma

Todas aquelas noites estranhas
fizeram com que amanhecesse
nublado
Sem ninguém pra ter ao lado

- Que vazio é esse?
- Eu. Minha alma foi embora.
- Nunca ouvi falar nisso.
Desprezo e foi assim que perdi minha lucidez.

Jogando fora muitas coisas
percebi que faltavam algumas
e sobravam várias
Devia ter jogado tudo muito antes.

- Bom dia, precisa de alguma coisa?
- Sim, perdi meu único amigo, disse que minha alma tinha partido.
- E com razão, né?
Deboche e foi assim que perdi minha paciência.

Que se danem todos os outros
Não preciso de mudanças, não preciso agradar
Tirei minhas coisas do lixo
Fui atrás da minha sorte, da minha alma e do meu amigo

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Espero



Espero que não chova, espero que não faça frio, espero que o céu esteja bem estrelado.
Espero que você me olhe e sorria, perguntando-se em silêncio no que eu estaria pensando.
Espero que seu sorriso seja o mesmo, aquele sincero e que faz meu coração derreter, que os olhos tenham o mesmo brilho.
Espero que haja confiança, que haja palavras, que haja silêncio, daqueles que falam mais que palavras.
Espero que eu seja seu pensamento antes de dormir, que os dias nublados se tornem ensolarados com a sua voz no telefone.
Espero que nossas mãos se entrelacem e nossos corações também.
E espero que haja amor, que o resto ele ajuda a gente a conseguir.

domingo, 8 de abril de 2012

Amor?


Eu nunca vou esquecer o seu olhar. Nunca vou esquecer quando você sorriu pra mim. Eu estava meio louca,gritando e feliz. Eu estava sendo eu mesma e você simplesmente sorriu.
Veio quando eu não esperava e era tudo que eu precisava, depois de quase não sobreviver a todas aquelas armadilhas que a vida me aprontou.
Não sei se quero que você saiba, por que eu sempre acabo metendo os pés pelas mãos, eu sempre acabo com tudo, mesmo antes de começar. Mas eu não posso e não consigo guardar isso só pra mim. Eu quero que todo mundo escute!
Quero mais sorrisos, mais olhares. Quero mais noites iluminadas, mais razões para viver. Quero mais abraços, mais cores no mundo. Quero coração apertado de saudades, sms preocupados. Quero mais alegria, motivos para seguir em frente. Quero você.
Vou me jogar, vou cair. E espero que você esteja lá para me segurar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Entrelaçada


Uma trança mal feita, um sorriso no rosto e pôs-se a caminhar, protegida pelo guarda-chuva. Abandonou a contra gosto a casa cheirando a café, partiu outra vez.
Sentia fala de amanhecer sempre bêbada, desde quando decidiu amadurecer, parou de afogar as frustrações em copos de vodca com energético. Amadurecer? Agora ela amanhecia cada domingo numa cama diferente. Apresentava-se como Amanda: a que não se apaixonava nunca. Era mais digno do que encharcar o travesseiro com lágrimas, depois de ter o coração partido.
Tomou essa postura depois de ter acontecido com ela o que achava que só existia em novelas: pegou o melhor amigo com o namorado. Dupla traição, a do namorado e a do amigo. A segunda doeu mais.
Depois do quinto romance, em menos de 2 anos, fracassar a gente começa a se perguntar se o problema é com a gente. Mas Amanda não queria saber a resposta, queria testar seu poder de sedução. Fazia um rodízio de baladas o mês todo, aos sábados. Cada fim de semana em uma diferente. Cada domingo amanhecendo em um apartamento diferente, com um homem diferente do lado.
Pensou que essa fase passaria logo, mas já era o 16º domingo que saía fugida, depois de deixar a mesa do café da manhã pronta. E essa brincadeira parecia ficar mais interessante a cada semana.
Uma vida mal feita, cheias de marcas do passado que a impediam de seguir em frente. A traição culminou tudo e a impulsionou a tentar caminhos diferentes, como esse.
Cheia de marcas no pescoço, deixadas por alguém que nunca mais veria. O cabelo esconde, tudo bem. No ônibus em direção ao terminal, jogou a trança de lado e sorriu para o celular, enquanto o fazia de espelho.
- Linda! – Sussurrou para o celular.
Palavras e atitudes que não condiziam com o que tinha vivido até quatro meses atrás. Era falta de coragem ou era tudo mentira mesmo? Havia inventado uma nova vida para tentar apagar resquícios de um passado que só lhe causava arrependimento e vivia essa rotina como se fosse a mulher mais feliz do mundo. Uma coitada.
Saiu correndo para pegar o outro ônibus, a três plataformas de onde estava. O elástico da trança caiu e, conforme corria, o cabelo se desentrelaçava. Quando chegava ao ponto, o motorista fechou a porta.
- Droga!  - Bufou.
Um pranto incontrolável lhe encharcou os olhos. Sentou-se na calçada para esperar o nó a garganta desmanchar. Tal qual sua trança, tal qual sua vida.
Percebeu em que beco sem saída havia se metido. E chorou, chorou até que o outro ônibus estacionou na plataforma. Apesar de olharem com dó, nenhum dos passantes perguntou o que acontecia. Levantou-se e entrou no ônibus. Jogou os cabelos pra trás e encostou a cabeça no vidro. Pensando a qual balada iria na semana que vem.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

De: Melancolia - Para: ninguém


            A chuva já passou, já pode vir, meu bem. Te espero com o vinho e com o alento.
            Te espero com a luz acesa e a porta trancada. Dê duas batidas, eu abro pra você. A porta e o coração.
            Você vem e a gente vive aquelas paixões loucas que sonhei. Daquelas que arrebatam e que me fazem sair de órbita por semanas.
            Tudo bem pra você se o sofá não for confortável e o assunto variar do culto ao banal em questão de segundos? O café pode ser forte? Você se incomoda se eu abrir as janelas? É que gosto do cheiro da chuva.
            Já pode vir, já não há mais ninguém na rua, ninguém pode te ver (era esse o seu medo?). Te espero com um filme no DVD e com um abraço pronto.
            Te espero com um nó na garganta, com lágrimas querendo escapar dos meus olhos. Com um pressentimento que grita que você não vem e com uma faísca de esperança que me faz... Te esperar.
            O vinho está pela metade, o vento avisa que a chuva pode voltar. Já passa das duas e eu não sei mais se estou sendo controlada pela razão (mas desconfio que não esteja). Ainda te espero sentada no tapete, olhando pra tv desligada.
            Você não vem? O café esfriou, o DVD entrou em stand-by, o abraço foi partido, as lágrimas se libertaram e apagaram a faísca de esperança, o vinho já acabou. Apaguei a luz e tranquei a janela. E o coração também.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Amizades e seus finais


O que leva ao fim de uma amizade? Nunca entendi muito bem como amigos desaparecem. Mágica? Chá de sumiço? Atenção: falo de melhores amigos, não daquele cara que você conheceu no bar, falou sobre Dostoievski, Kant, futebol, mulher e até chegou a discutir qual cerveja era a melhor. Também não falo daquela sua colega de trabalho do escritório, que saía com você toda sexta-feira pra tomar um refri e comer batata no shopping. Falo daqueles que te prometeram, mesmo que mutuamente, às vezes as palavras são desnecessárias, companheirismo, compreensão, apoio, companhia... E que agora aparecem só no facebook e olhe lá.
É bem esquisito alguém íntimo parecer um desconhecido. E dói muito, porque é uma coisa inesperada. Claro que ao final de cada ciclo é natural que cada um siga seu caminho. Mas eu quero abraçar todos e levá-los comigo. O único problema é que muitas vezes os amigos não querem ser abraçados.
A sensação é incômoda e aos poucos atinge seu máximo. É aquele momento em que os dedos procuram o nome da pessoa na agenda do celular.  O efeito passa, seguido da seguinte pergunta: se ele (a) não me procura, por que eu deveria?
Um aniversário sem a mensagem de parabéns, nada de desejos para o ano novo, a sensação de que foi esquecida. Aos poucos a gente parar de se importar tanto com a pessoa. E acaba se esquecendo um pouco dela também, apesar das lembranças permanecerem.
Já não dói tanto, mas a gente sempre vai imaginar quantos outros momentos viveríamos e se aquilo um dia pode voltar a ser a melhor amizade do mundo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Tarde demais


- Alice? Seu amigo Ricardo está aqui. Pode mandar subir? – O porteiro anunciou através do interfone. Respondi que sim e me perguntei o que ele estava fazendo na porta do meu prédio às oito da manhã. Milhares de tragédias passaram pela minha mente e quando abri a porta, dei de cara com ele saindo do elevador.
- Pelo amor de Deus, diz que não! – Ele me olhava desesperado.
- Não pra quê, Ricardo? – Ele entrou como um furacão em meu apartamento e se sentou no sofá. – Aconteceu alguma coisa com o seu pai? Com a sua mãe? – Minha voz ia se tornando estridente, como em todas as vezes que ficava nervosa, imaginar algo ruim acontecendo com a Dona Rita me fazia parar de respirar.
- Não. Só me fala que você vai dizer que não.  Ele estava cabisbaixo e tinha a respiração pesada.
- Por quê? O que aconteceu? Vão me chamar pra ir pro Big Brother e eu não to sabendo, é isso? – Ri, meio com lágrimas nos olhos, eu sempre tentava fazer alguma piada, ele já devia esperar. Ricardo então me encarou e pude perceber que ele não havia dormido, os olhos estavam lacrimejando e, em doze anos de amizade, eu nunca tinha o visto chorar.
- O Roberto vai te pedir em casamento.
Perdi o chão e tive que sentar no sofá. Casar? Namorávamos, entre muitas idas e vindas, havia sete anos. Fomos apresentados pelo Ricardo, que já estava cansado de ouvir meus lamentos carentes, de secar minhas lágrimas de solidão, então resolveu me arrumar um namorado. Deu certo, mas meu coração sempre balançava pelo amigo, nada passou muito do platônico. E por medo de ficar sozinha e medo de perder a amizade dele, que é mais importante do que qualquer amor do mundo pra mim, eu me calei. Não sei se fiz bem, mas não me arrependo, tenho esse costume de não me arrepender do que não fiz.
- Casar?
Essa ideia me apavorava. Tinha acabado de terminar meu mestrado e planejava continuar a peregrinação no mundo acadêmico. Casar estava completamente fora dos planos, pelo menos até aquele momento.
- É. E você não pode aceitar.
- Por quê? O Beto me trai? O que você sabe? Por que eu não posso aceitar?
- Achei que você não o amava. – Ele tremia e por um segundo me perguntei se sentia algo a mais por mim. Mas já estava cansada daquela pergunta, vinha desde os meus 16 anos me torturando, tentando achar um resquício de amor num monte que era só de amizade. Sabia que ele não me amava, mas às vezes gostava de imaginar que sim.
- Ricardo... Você sabe que eu amo, do meu jeito. – Ele sabia de tudo que fiz no período em que eu e Roberto ficamos separados. As baladas, as bebedeiras, os homens e as mulheres que me levaram pra cama. Sempre me jurou segredo e sempre cumpriu também.
            Silêncio.  Eu não amava o Beto, estava estampado na minha cara e em meu coração.  Mas eu já beirava os trinta e não podia ficar esperando o príncipe encantado bater a minha porta ou talvez não pudesse esperar que o nada príncipe e muito menos encantado que estava ali na minha frente tomasse alguma atitude mais concreta do que ficar estarrecido no meu sofá.
- Estraguei a surpresa dele então. – Ele disse sem graça, após alguns minutos.
- Por que você veio até aqui gritando pra eu dizer não?
            “Porque eu te amo.” Era o que o meu coração ecoava, era o que meus ouvidos queriam ouvir. Mas conhecia o Ricardo há tempo suficiente pra saber que aquilo nunca sairia da boca dele pra mim.
- Você que sempre dizia que não ia casar, que isso era abrir mão da sua liberdade... Só achei que... – Ele passou a mão nos cabelos, nervoso.- Que você não mudaria de ideia.
- Mas talvez eu tenha mudado. Minha juventude já está acabando, já aproveitei bastante. – Ri sem vontade, ele me acompanhou. – Preciso de alguém que me dê segurança, que queira ficar comigo pelo resto da vida.
            “Me deixa ser essa pessoa.” Ele falaria, se as coisas acontecessem como eu queria. Mas nunca acontecem.
- Ah, sua bicha! – Ele me deu um tapa no ombro. – É, eu não tinha pensado por esse lado. A gente se fala depois. – Saiu porta afora e não se despediu, não olhou pra trás.
            Agora estou no altar, ele está do meu lado direito, acompanhado pela Flávia, nossa amiga. O padre está falando mil coisas que para mim não possuem sentido nenhum. Estou aqui de corpo e não de coração.
- Roberto Piazon, você aceita Maria Clara Fernandes como sua legítima esposa?
- Sim. – Ele me olhou emocionado.
- Maria Clara Fernandes, você aceita Roberto Piazon como seu legítimo esposo? – Olhei para Ricardo. É a sua última chance, seu imbecil. Se ele sair correndo da igreja, eu o sigo. Podemos fugir em seu Corsa estacionado ali perto, podemos fugir para a Bolívia, podemos estar juntos na tristeza e na alegria, na saúde e na doença, em todos os dias de nossas vidas. Roberto pigarreava e minha visão desembaçou. Ricardo me encorajava a dizer sim, sorrindo e aquiescendo. Definitivamente, ser feliz comigo nunca esteve nos planos dele.
- Sim, eu aceito.
- Eu vos declaro marido e mulher.
Um grito de dor ecoa na igreja, é Ricardo. Pensei que algo o tivesse atingido. Ele sai do lugar, em direção à saída.
- Você não podia ter feito isso comigo, com a gente. – Murmurando ao passar por mim.
- Sinto muito se agora é tarde demais, Ricardo. – Grito sem nenhum arrependimento por ter dito sim ao meu marido. Fico com quem me merece.