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Alice? Seu amigo Ricardo está aqui. Pode mandar subir? – O porteiro anunciou
através do interfone. Respondi que sim e me perguntei o que ele estava fazendo
na porta do meu prédio às oito da manhã. Milhares de tragédias passaram pela
minha mente e quando abri a porta, dei de cara com ele saindo do elevador.
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Pelo amor de Deus, diz que não! – Ele me olhava desesperado.
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Não pra quê, Ricardo? – Ele entrou como um furacão em meu apartamento e se
sentou no sofá. – Aconteceu alguma coisa com o seu pai? Com a sua mãe? – Minha
voz ia se tornando estridente, como em todas as vezes que ficava nervosa,
imaginar algo ruim acontecendo com a Dona Rita me fazia parar de respirar.
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Não. Só me fala que você vai dizer que não.
Ele estava cabisbaixo e tinha a respiração pesada.
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Por quê? O que aconteceu? Vão me chamar pra ir pro Big Brother e eu não to
sabendo, é isso? – Ri, meio com lágrimas nos olhos, eu sempre tentava fazer
alguma piada, ele já devia esperar. Ricardo então me encarou e pude perceber
que ele não havia dormido, os olhos estavam lacrimejando e, em doze anos de
amizade, eu nunca tinha o visto chorar.
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O Roberto vai te pedir em casamento.
Perdi
o chão e tive que sentar no sofá. Casar? Namorávamos, entre muitas idas e
vindas, havia sete anos. Fomos apresentados pelo Ricardo, que já estava cansado
de ouvir meus lamentos carentes, de secar minhas lágrimas de solidão, então
resolveu me arrumar um namorado. Deu certo, mas meu coração sempre balançava
pelo amigo, nada passou muito do platônico. E por medo de ficar sozinha e medo
de perder a amizade dele, que é mais importante do que qualquer amor do mundo
pra mim, eu me calei. Não sei se fiz bem, mas não me arrependo, tenho esse
costume de não me arrepender do que não fiz.
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Casar?
Essa
ideia me apavorava. Tinha acabado de terminar meu mestrado e planejava
continuar a peregrinação no mundo acadêmico. Casar estava completamente fora
dos planos, pelo menos até aquele momento.
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É. E você não pode aceitar.
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Por quê? O Beto me trai? O que você sabe? Por que eu não posso aceitar?
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Achei que você não o amava. – Ele tremia e por um segundo me perguntei se
sentia algo a mais por mim. Mas já estava cansada daquela pergunta, vinha desde
os meus 16 anos me torturando, tentando achar um resquício de amor num monte
que era só de amizade. Sabia que ele não me amava, mas às vezes gostava de
imaginar que sim.
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Ricardo... Você sabe que eu amo, do meu jeito. – Ele sabia de tudo que fiz no
período em que eu e Roberto ficamos separados. As baladas, as bebedeiras, os
homens e as mulheres que me levaram pra cama. Sempre me jurou segredo e sempre
cumpriu também.
Silêncio. Eu não amava o Beto, estava estampado na minha
cara e em meu coração. Mas eu já beirava
os trinta e não podia ficar esperando o príncipe encantado bater a minha porta
ou talvez não pudesse esperar que o nada príncipe e muito menos encantado que
estava ali na minha frente tomasse alguma atitude mais concreta do que ficar
estarrecido no meu sofá.
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Estraguei a surpresa dele então. – Ele disse sem graça, após alguns minutos.
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Por que você veio até aqui gritando pra eu dizer não?
“Porque eu te amo.” Era o que o meu
coração ecoava, era o que meus ouvidos queriam ouvir. Mas conhecia o Ricardo há
tempo suficiente pra saber que aquilo nunca sairia da boca dele pra mim.
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Você que sempre dizia que não ia casar, que isso era abrir mão da sua
liberdade... Só achei que... – Ele passou a mão nos cabelos, nervoso.- Que você
não mudaria de ideia.
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Mas talvez eu tenha mudado. Minha juventude já está acabando, já aproveitei
bastante. – Ri sem vontade, ele me acompanhou. – Preciso de alguém que me dê
segurança, que queira ficar comigo pelo resto da vida.
“Me deixa ser essa pessoa.” Ele
falaria, se as coisas acontecessem como eu queria. Mas nunca acontecem.
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Ah, sua bicha! – Ele me deu um tapa no ombro. – É, eu não tinha pensado por
esse lado. A gente se fala depois. – Saiu porta afora e não se despediu, não olhou
pra trás.
Agora estou no altar, ele está do meu
lado direito, acompanhado pela Flávia, nossa amiga. O padre está falando mil
coisas que para mim não possuem sentido nenhum. Estou aqui de corpo e não de
coração.
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Roberto Piazon, você aceita Maria Clara Fernandes como sua legítima esposa?
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Sim. – Ele me olhou emocionado.
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Maria Clara Fernandes, você aceita Roberto Piazon como seu legítimo esposo? –
Olhei para Ricardo. É a sua última chance, seu imbecil. Se ele sair correndo da
igreja, eu o sigo. Podemos fugir em seu Corsa estacionado ali perto, podemos
fugir para a Bolívia, podemos estar juntos na tristeza e na alegria, na saúde e
na doença, em todos os dias de nossas vidas. Roberto pigarreava e minha visão
desembaçou. Ricardo me encorajava a dizer sim, sorrindo e aquiescendo. Definitivamente,
ser feliz comigo nunca esteve nos planos dele.
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Sim, eu aceito.
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Eu vos declaro marido e mulher.
Um
grito de dor ecoa na igreja, é Ricardo. Pensei que algo o tivesse atingido. Ele
sai do lugar, em direção à saída.
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Você não podia ter feito isso comigo, com a gente. – Murmurando ao passar por mim.
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Sinto muito se agora é tarde demais, Ricardo. – Grito sem nenhum arrependimento
por ter dito sim ao meu marido. Fico com quem me merece.