terça-feira, 2 de agosto de 2011

Mar de Amargura

“Você vai desejar nunca ter me conhecido.”

     Enquanto eu andava pelo centro velho de São Paulo, murmurava incrédula cada palavra dita por ele. Eu e Rodrigo fomos colegas de faculdade e trabalhávamos juntos, algo como almas gêmeas. Éramos mais que isso, éramos noivos e um futuro cheio de felicidade nos esperava.
     Tinha sido dispensada dez meses antes do casamento e uma semana antes de fechar os negócios com a igreja, o buffet e a decoradora. Porém a dor era tão grande que isso se tornara apenas um pequeno detalhe.
     – Isso não vai ficar assim, Mariana. – Minha consciência me alertou. – Sabe, Valéria, no fundo eu acho que já sabia que isso ia acontecer. É como se um homem não pudesse fugir a seu destino. Ou uma mulher, no meu caso. – Comentei com a minha mais nova melhor amiga.
     Eu olhava as pessoas em volta e tentava me consolar, mas só me entristecia mais. O pior era ter que fingir que estava tudo bem. É que eu sempre fui assim, dura por fora, mas maria mole por dentro, sempre escondi de todos o que sentia e isso me fez evitar diversas decepções. Menos essa. Decidi, por conta própria, ter meia hora a mais de almoço. Não me importaria em ser recriminada por meu chefe, eu já não tinha perspectiva de vida. Entrei num café e escutei, um pouco que sem querer, uma fala da conversa de duas mulheres que estavam do meu lado. Lembro-me exatamente de quando a morena disse: “Só me senti feliz quando consegui devolver tudo o que ele me fez.”
     E foi a partir daquele momento que eu tomei um novo rumo. Em pensar que tinha cogitado pedir demissão,  mesmo tendo um plano de carreira impecável naquele lugar. Seria muito mais fácil executar meu plano com ele a poucos metros de mim. Trilharia outro caminho porque aquela Mariana doce e delicada tinha morrido ali, naquele café, e no lugar cresceria uma Mariana amargurada, vingativa e infinitamente mais feliz, como a moça de cabelos escuros. Lágrimas rolariam e não mais dos meus olhos. Soltei uma gargalhada e Valéria me mirou assustada.
     – Ah, por favor, Val, quem vê pensa que você é uma santa! Ele merecia, não merecia? - Valéria assentiu.- Então pronto, já que ele merecia, eu fiz! - Sorri inocentemente e ela sorriu de volta.-
     E com toda essa dor eu aprendi o porquê da Terra girar: é para que tudo que vá, volte. Nesse caso voltaria numa intensidade imparável.
     Eu não sei de onde tirei tanta frieza, acho que foi meu coração que cansou de chorar as feridas e as deixou cicatrizarem. Talvez essas cicatrizes me deram toda a força necessária para seguir em frente com meus planos.
     Primeiro eu o fiz achar que estava louco. Troquei as gavetas dele de lugar, apaguei alguns arquivos do computador, peguei o vale refeição da carteira dele e quando ele voltou, após ter passado por um constrangimento terrível na frente dos nossos colegas,  encontrou-o em cima da mesa. Sem falar nas vezes em que alguns documentos sumiram da mesa dele e apareceram misteriosamente em sua pasta, dentro de sua bolsa. O nosso chefe adiantou dez dias de férias, já que Rodrigo disse que estava sobrecarregado, que não dormia direito e devia ser estresse. Não era o estresse. Era eu.
     – Você não se arrepende, Mari? –Valéria abriu a boca pela primeira vez para me perguntar algo.
     – Claro que não, Val. Eu me arrependo de apenas uma coisa: de ter acreditado nas promessas dele.
     Eu queria convencê-lo de que ele estava sofrendo uma conspiração. Depois do período de descanso, eu o olhava com pena. Contei para a secretária que havia boatos de que ele estava para ser despedido e que esse tempo foi o suficiente para o patrão achar alguém à altura para o cargo. Em três dias metade do nosso andar o olhava com dó, em uma semana, todos o miravam assim.  Além de tudo isso, o ascensorista chegou a murmurar um sinto muito quando ele saiu do elevador. Controlei-me ao máximo para não rir da cara dele de pavor. Escondendo a dor também aprendi a esconder o sorriso.
     Eu não sabia que o cafajeste era tão ingênuo ao ponto de me perguntar o que estava acontecendo. Quando fui surpreendida com a questão, apenas respondi um sinto muito, no mesmo tom do ascensorista e olhei no fundo de seus olhos, ele estava a ponto de chorar! E uma felicidade estranha e imensurável tomou conta de mim por dentro. Era apenas o começo. O meu futuro-ex-colega-de-trabalho me perguntou se era melhor pedir demissão do que ser demitido. Respondi que ele deveria esperar até que o chefe lhe comunicasse algo, por que, afinal, boatos ocorriam em qualquer empresa, talvez ele nem fosse dispensado. Não poderia mantê-lo muito longe, meu plano não estava nem na metade ainda.
     Pus cola nas lapiseiras dele, joguei documentos de sua responsabilidade no lixo, formatei seu computador, entiquetei revistas de pornografia com seu nome e fiz com que elas parassem na mesa do chefe. Cada dia acontecia algo. Ele chegou a desconfiar de mim, mas era a palavra de alguém que se julgava perseguido contra a de uma funcionária extremamente competente e responsável, que vivia consertando seus erros. Além do mais, tínhamos o mesmo cargo, não haveria motivos para eu querer tomar o lugar dele.
     Até que ele resolveu pedir afastamento por problemas psicológicos. Foi questão de semanas para o nosso chefe contratar uma recém-formada para ficar no lugar do meu ex-amado, recém-odiado.
    Minhas férias chegaram e o momento de fazê-lo pensar que estava realmente louco também. Cartas anônimas o ameaçando, riscos em seu carro, telefonemas a cobrar com pessoas rindo ao fundo, mandava flores com cartõezinhos de caveira, cheguei até a contratar um rapaz alto e forte para segui-lo por uma semana. Sua casa agora tinha todas as janelas fechadas e as portas trancadas. Ninguém, além dele e da empregada, entrava mais lá. Eu me divertia muito escrevendo aqueles bilhetes, no último eu escrevi: Me veja indo embora com cada parte sua. Não subestime as coisas que posso fazer. Você vai desejar nunca ter me conhecido. Pense em mim nas profundezas do seu desespero. Você vai me pagar na mesma moeda e colher o que plantou. Você vai desejar nunca ter me conhecido.”  Esse era formado por trechos da nossa música favorita da Adele e era para ele perceber que era eu quem fazia tudo aquilo. Isso não provaria nada, porque eu não era a única pessoa do mundo que conhecia a música.
    
– Mas e se ele tivesse chamado a polícia, Ma?
     – Teria sido melhor, eu passaria menos tempo aqui. Na verdade, seria pior, detesto que interrompam meus planos. Do mesmo jeito que os criei, eu que tenho que terminá-los.
     Um tempo depois a empregada dele me ligou, dizendo que pedira demissão, pois o patrão estava insuportavelmente neurótico, não deixava ninguém nem entrar em casa, evitava os parentes e não saía para nenhum lugar, apenas para colocar, e rapidamente, o lixo no cesto de fora. Eu lamentei e disse que era melhor assim, já que ele se recusava a procurar ajuda médica. Desliguei o telefone, caí no chão, contorcendo-me de tanto rir. Não pensei que daria certo logo de cara, foi fácil demais.
     Agora só estaria ele em casa, circunstância e local perfeitos para a ação. O plano era simples, porém os materiais seriam difíceis de encontrar. Eu gastaria muito álcool se contornasse toda a casa, então, enquanto eu fazia minha caminhada matinal, passei por um posto de gasolina. A solução estava ali.
     Voltei para casa e peguei dois regadores no jardim, calculei que aquela quantidade me bastaria. Fui até o posto, deixando o carro a cinco quadras, e contei a típica história de que havia acabado a gasolina. O frentista ofereceu-se para me acompanhar, mas foi fácil dispensá-lo. Com muito cuidado, coloquei os vasilhames cheios de combustível no automóvel e segui rumo ao mercado. Mais três embalagens de querosene, caixas de fósforo e tudo aquilo ferveria, literalmente! A próxima parada seria a casa dele.
     – Até agora eu não acredito... Como você teve coragem, Mari...
     – Eu faria outra pergunta... Como ele teve coragem de fazer tudo aquilo comigo?
     – Mas ele só terminou o noivado... Não havia necessidade de querer matá-lo! Foi melhor que abandoná-la no altar em pleno casamento!
     – Cale-se, Valéria! Ele já paga advogados suficientes para defendê-lo, não precisa de você.
          Desci do carro e espalhei primeiramente a gasolina pelo jardim que havia em frente. Por ser uma área estritamente residencial, ninguém me viu. Peguei a querosene e espalhei pelos cantos e nos fundos. As janelas permaneciam fechadas, por conta do medo do cretino. Ele não sabia o quanto estava me ajudando! Eu sorria tanto, que só de lembrar, meu maxilar dói. Uma caixa de fósforos e eu pude ver o fogo crepitando, gerando um ruído muito satisfatório. A porta de madeira foi a primeira a ser destruída, dando passagem para o fogo adentrar. Eu ouvia seus gritos desesperados e tentava imaginar sua face naquele momento.
     – Eu vou te matar, sua maluca! – Ele gritou de dentro da casa, enquanto tentava fugir das chamas.
     – Não se você morrer primeiro, imbecil! – Eu respondi no mesmo tom.
     Os bombeiros chegaram e, junto a eles, a polícia. Eu não tinha como fugir, mas também acho que nem queria. Ajudaram-no a sair do fogaréu e ele se debatia freneticamente, apontando-me e dizendo que eu era a responsável por tudo aquilo.
     Prestei depoimento e confessei, afinal, a perícia e os vizinhos, que saíram de suas casas assustados com o fogo, confirmariam meu ato. Eu não tinha pensado nas consequências, mas mesmo assim, não me arrependo de nada até hoje. E posso afirmar que faria tudo de novo, se preciso, mas dessa vez, sem dar chance de escape.
     – Então assim você chegou até aqui, certo? – Valéria me perguntou, cautelosa, encarando as grades da cela.
     – Foi sim, Val. E acho que não vou sair tão cedo, não é? Mas agora, conte-me a sua história. Como você chegou até aqui?

Florbela Espanca

"Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade."