- Você tem medo de alguma
coisa?
- Quê? – Respondi de
volta. Estava sentada na praça suja, cheia de garrafas de vodka quebradas no
chão, de cápsulas de plástico onde há algumas horas havia cocaína, eu
destruída, num cenário igualmente destruído, sentada perto de um desconhecido,
que agora tentava puxar assunto.
- Se você
tem medo... – Ele baixou o tom de voz.
- Como
assim? Medo de bicho, essas coisas?
- Também.
Oh, eu tenho medo de lagartixa, de ficar muito doente e de abandono.
- Eu não
tenho medo de bicho... Eu tenho medo de ficar cega, apesar de fingir que não vi
as coisas, de vez em quando. Tenho medo nunca mais poder falar com ele também.
- Tá aqui
por causa dele, né?
- Mais ou
menos. Ele não quer mais me ver, com medo de perder a amizade, eu acabei perdendo
tudo, mas foi por escolha minha, eu que plantei tudo isso. A gente colhe o que
planta, acho que foi na catequese que ouvi isso. Tá aqui por que ela te
abandonou? – Sentei no mesmo banco que ele. Olhando mais de perto, dava pra ver
cicatrizes em seu pescoço, perguntei-me se ele havia tentado se matar. Cada
cicatriz conta uma história, mas não quis perguntar ao moço se a dele era essa.
- Mais pra
mais do que pra menos. Plantei amor, colhi decepção, te enganaram na catequese.
– Ele riu amargurado. – To aqui na esperança de vê-la passar, mesmo que seja
com outro. Quero encarar aqueles olhos pela última vez, tendo a certeza de que
é a última vez. Nem isso ela me deu.
- Ele me
disse que aquela seria a última vez que eu ouviria sua voz. Foi por telefone,
não entendi muito bem o que eu fiz, mas sempre perdi em silêncio. Vim aqui pra
ver se alguém gritava comigo, ver se alguém podia me fazer correr atrás dele,
implorar, mas só achei cacos espalhados pelo chão. E achei você.
Pisando nos pedaços de vidro, embriagados
pela situação e pelo caos, de mãos dadas, deixamos alguns medos naquele banco,
não tivemos coragem de olhar pra trás.
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