terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aquela noite


        Eu estava entorpecida pelo álcool e isso me agradava. Anestesiada, tinha a sensação de que se despencasse, alguém me seguraria.
        Procurando pela pessoa certa no lugar errado, encontraria? Havia tontos e estonteantes ao meu redor, a luz piscava, impossibilitando-me de enxergar direito quem se aproximava.
        Passei tantos meses em braços errados que não me importava em perder mais alguns minutos, meses por que eu quis, eu que sustentei aquilo sozinha, depois da terceira semana, gostei mais dele do que de qualquer outra coisa, mais dele do que de mim. E agora eu dançava, sem ritmo nem direção, tentando me encontrar bem longe de onde havia me perdido.
        Músicas que não faziam sentido, mas a minha vida também não fazia naquele momento. Tropecei e um braço me impediu de ir ao chão. Segurei-me ali como se fosse a última oportunidade.
        Quando os olhos se encontram e a música se torna inaudível por conta das batidas do coração, é sinal de que é hora de voltar para casa. Ou é hora de pegar mais uma bebida no bar.

domingo, 19 de agosto de 2012

Conversa com um desconhecido


- Você tem medo de alguma coisa?
- Quê? – Respondi de volta. Estava sentada na praça suja, cheia de garrafas de vodka quebradas no chão, de cápsulas de plástico onde há algumas horas havia cocaína, eu destruída, num cenário igualmente destruído, sentada perto de um desconhecido, que agora tentava puxar assunto.
        - Se você tem medo... – Ele baixou o tom de voz.
        - Como assim? Medo de bicho, essas coisas?
        - Também. Oh, eu tenho medo de lagartixa, de ficar muito doente e de abandono.
        - Eu não tenho medo de bicho... Eu tenho medo de ficar cega, apesar de fingir que não vi as coisas, de vez em quando. Tenho medo nunca mais poder falar com ele também.
        - Tá aqui por causa dele, né?
        - Mais ou menos. Ele não quer mais me ver, com medo de perder a amizade, eu acabei perdendo tudo, mas foi por escolha minha, eu que plantei tudo isso. A gente colhe o que planta, acho que foi na catequese que ouvi isso. Tá aqui por que ela te abandonou? – Sentei no mesmo banco que ele. Olhando mais de perto, dava pra ver cicatrizes em seu pescoço, perguntei-me se ele havia tentado se matar. Cada cicatriz conta uma história, mas não quis perguntar ao moço se a dele era essa.
        - Mais pra mais do que pra menos. Plantei amor, colhi decepção, te enganaram na catequese. – Ele riu amargurado. – To aqui na esperança de vê-la passar, mesmo que seja com outro. Quero encarar aqueles olhos pela última vez, tendo a certeza de que é a última vez. Nem isso ela me deu.
        - Ele me disse que aquela seria a última vez que eu ouviria sua voz. Foi por telefone, não entendi muito bem o que eu fiz, mas sempre perdi em silêncio. Vim aqui pra ver se alguém gritava comigo, ver se alguém podia me fazer correr atrás dele, implorar, mas só achei cacos espalhados pelo chão. E achei você.
        Pisando nos pedaços de vidro, embriagados pela situação e pelo caos, de mãos dadas, deixamos alguns medos naquele banco, não tivemos coragem de olhar pra trás.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


Dissolvi
e não consigo me reorganizar
Ajoelhei
mas quem deve me perdoar?

Colorindo corações
prendendo-os à imaginação
Deixei que voassem livres
temendo que caíssem ao chão

Olhe pra trás
é lá que está o fim
Mas o que queria mesmo é que
você soubesse viver sem mim

Quem se afasta
passa a enxergar melhor

quarta-feira, 15 de agosto de 2012


Entre contos
Desencontros
Que desencantam
Entrelaçam
Nos prendem
Em palavras escritas
(não-ditas)
Que agora me incompletam
E como sentir falta
do que eu nunca tive?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Pra melhor amigue ♥


Hey, menina. Grite, chore, corra, se esconda, chore mais um pouco. Porque tudo isso faz parte do seu show!
        Se afogue, ressurja, perca-se, ache-se e só olhe pra trás quando quiser, quando achar que pode, quando achar que deve.
        Corra mais rápido e tape os ouvidos pro que te disserem nessa corrida. Se escute. É só isso que espero de você.
        E nunca se esqueça de que eu vou dar as mãos pra você quando você precisar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Falta


Talvez o que falte pra você
Seja um pouco de amor
Um pouco de calor
Uma colherinha de açúcar no café

Pode ser que lhe faltem braços abertos
Quando você queira apenas abraçar
Uma vontade louca que venha sem avisar
Um empurrãozinho que lhe derrube num poço de ilusões

Acho que faltam sonhos
Planos, viagens, verdade
Falta largar esse jeito covarde
(onde foi que você se perdeu?)

Ou apenas falte vontade de amadurecer
Olhos que saibam enxergar
Largar o medo de se jogar
(quando será que você vai se encontrar?)