domingo, 18 de dezembro de 2011

O que foi 2011 para mim


2011 foi um ano de muita mudança para mim. E elas começaram em fevereiro. Um dia depois de ter saído a primeira chamada na USP, na qual meu nome não estava, saiu o resultado da Unifesp, e lá eu apareci aprovada em 5º lugar. Um dia depois de ter me sentido a pessoa mais burra do país, me senti a 5ª mais inteligente.

Fiz a matrícula na federal e poucos dias depois saiu a segunda chamada da USP. Passei e tomei uma decisão: não ia tratar como prioridade quem me tratou como segunda chamada (hahahaha). E foi a segunda melhor decisão que eu tomei na minha vida, porque a primeira foi ter prestado vestibulinho pro Luther King e não pra GV.

No começo de 2011 eu senti falta do ensino médio, principalmente dos meus amigos. Porque é aquilo, a gente promete que vai sempre se ver, mas acaba não dando muito certo, os horários não coincidem e a faculdade/cursinho toma a vida social de todo mundo. E você sabe láááá no fundo muito bem quem vai ficar com você por uns bons anos (e tenho muito que agradecer a Milena e a Camila Y. por isso e tenho que pedir muito pra Deus e pra elas também não me deixarem) e quem não vai, por mais que doa. Mas me surpreendi, positivamente, com o Igor, porque achei que ele fosse sumir no mundo das exatas e aparecer uma vez no mês e olhe lá (apesar de que ele deve se arrepender cada segundo da vida dele de ter virado meu amigo hahaha) e me surpreendi, negativamente, com algumas pessoas que sumiram em algum mundo por aí.

Conheci pessoas que espero levar para a vida toda. A Anne, HI FIVE, com quem falei no começo do ano, parei de falar, voltei a falar e espero não parar de falar nunca mais, porque ela me diverte, me entende (claaaro, né? Cancerianos são muito bons nisso), me agüenta falando dos boys o dia todo, me traz doce de leite de Minas e porque ela se tornou minha melhor amiga. O Otávio maravilhooooooso, que gonga a Anne comigo, que me faz rir (ALFACE) e que é tããããão cute ooown. A Pamela, que entende minhas desilusões amorosas e meus vícios gordos. A Mona, que é diva e tá sempre feliz. A Ana, que é tãããão meiga e paciente. E o que mais me encanta, em todos eles, é a responsabilidade.

Vi que eu não to nem um pouco perto de ser a 5ª pessoa mais inteligente do país, porque meus professores estão todos nesse ranking. Aprendi que não é porque uma pessoa tem um pós-doutorado que ela não tem coração, como o André, que deixou o menino vender rifas na aula dele (logo ele, que nem intervalo dá só para economizar tempo), para ajudar no tratamento de uma amiga usuária de crack, como a Márcia, que faz piadinhas sobre o mundo acadêmico e como o Paulo, que faz piada de tudo. Sem contar todos os outros professores, que dividiram suas experiências comigo e com a sala com uma humildade surpreendente, porque eles são os únicos que, na minha opinião, poderiam ter um ego do tamanho do mundo.

A Unifesp se tornou um lugar muito confortável pra mim, minha segunda casa e um lugar em que eu me sinto muito bem, onde o tempo passa rápido demais, onde eu cantei, dancei, gritei, carreguei bêbado, me estressei, xinguei, falei mal da comida do bandejão, mas continuei comendo lá todos os dias (e sentando perto da máquina de suco), me desesperei, estudei (coisa que, ainda bem, foi a que mais fiz) ri demais (a segunda coisa que mais fiz), me revoltei, votei não à greve nas assembléias e aquele lugar é a causa de eu ter criado um amor, um encanto e uma admiração tão grandes pelo curso de Letras que não cabem em palavras, que não cabem nem em mim.

Eu tenho que agradecer a Deus por cada conquista que eu tive (como o 10 em grego), por cada amigo feito e cada amigo mantido (como o Luis, a Letícia, a Akemi, a Camila S., o Felipe, a Cris e o Thi, além dos supracitados [ADORO ESSA PALAVRA]), por cada desafio ultrapassado (como a prova de grego hahaha), por cada risada, por cada lágrima, pelos aprendizados (e muitos deles só aconteceram porque quebrei muito a cara) e principalmente por ter me dado esses meus pais, que me apóiam (do jeito deles, não querendo me deixar fazer Letras, pedindo a Deus que eu bata com a cabeça na parede e tenha talento para engenharia, administração, nutrição, geriatria ou qualquer outra profissão que não tenha como eu acabar me tornando professora, falando que 8,5 em Literatura Brasileira não é uma nota boa ENTÃO VAI LÁ FAZER AQUELA PROVA DO CARA@#$% NO MEU LUGAR PRA VER SE NÃO É NOTA BOA), mas me apóiam.

E no dia 18 de dezembro de 2011 eu posso afirmar, com toda certeza que tenho, que fui muuuuito feliz esse ano, que ele foi melhor que 2010 (menos financeiramente haha, mas o dinheiro não compra a felicidade AAAHAAAAM, mas me leva pra sofrer em Buenos Aires), que eu descobri quem vai estar comigo quando eu precisar e quem não vai e posso afirmar também que não me arrependo de nada, nem das atitudes tomadas nem das atitudes não tomadas (principalmente dessas hahaha).

E as promessas pra 2012? As promessas vou deixar pra lá, nunca as cumpro mesmo!

Amo muito, muito, muito mesmo, com cada espacinho que tem no meu coração, cada um citado aqui e que está em negrito. Vocês são o que me fazem ter vontade de viver, vocês são os que movem meu mundo.

Pessoas, tempos e lugares - Por Ana Júlia

Conheci pessoas por uma noite
e que duraram por uma vida
Conheci pessoas por anos
e que duraram até uma noite.

Conheci pessoas que achei que nunca conheceria
Conheci pessoas por um beijo
e que duraram por poucos segundos
Conheci pessoas que nunca me conheceram

Conheci pessoas numa mesa de bar
Num ônibus, no metrô, na chuva
Conheci gente que não falava nada
Conheci gente que falava sobre roupa,
sobre Flamengo, sobre Argentina e restaurante mexicano

Conheci lugares que valiam mais que pessoas
que me acolhiam, me protegiam da chuva
que eram quietos, agitados e os dois ao mesmo tempo.
Conheci a cidade.

Conheci pessoas que nem sabem que as conheci
Conheci gente que ainda não terminei de conhecer
Conheci eu mesma
Com olhos de uma desconhecida.

Conheci o tempo
o tempo que passou
Conheci eu mesma
construindo um novo tempo.



A Ana Júlia escreve essas e otras cositas más no http://othersideaj.blogspot.com/2011/12/pessoas-tempos-e-lugares.html

domingo, 20 de novembro de 2011

Cansaço


       Cansada. Cansada de tudo, cansada de todos. Da vida medíocre que levava, dos amigos que a condenavam a cada erro (eram seus amigos mesmo?), dos exageros da mãe, do distanciamento do pai, das perguntas indiscretas das tias, do comportamento promíscuo das colegas de trabalho,das roupas feias e velhas, do funk que as pessoas ouvem no ônibus, da conversa que as velhinhas insistem em puxar no metrô, do próprio metrô, do trânsito, do professor que fala, fala, fala e não se consegue entender porcaria nenhuma, do namorado que só reclama, do melhor amigo que nunca aparece, de não ligar para sua saúde, de ser pressionada a ser uma profissional melhor, uma aluna melhor, uma pessoa melhor. “Você tem que ajudar uma pessoa sempre que ela precisar!” Tem que ajudar é a infeliz que pariu, estava cansada de se colocar sempre em último lugar só para agradar/ajudar/ajeitar/engolir sem mastigar a vida dos outros.
       Pro inferno todos que a queriam ver por baixo, estaria sempre por cima, de salto agulha para pisar na cara de todos eles assim que escapasse daquele tormento que era sua vida, se é que podia chamar de sua. Correu, tossiu e cuspiu o resto de vida alheia que a sufocava na calçada. 

domingo, 30 de outubro de 2011

Me ama?


- Alô?

- Oi, eu sei que é muito tarde, mas você tem que me escutar. É, eu sei que passa das 3 da manhã, mas é que eu bebi demais e arrumei coragem pra dizer tudo que eu devo. Me escuta, não desliga, por favor. Droga, eu não sei nem por onde começar, eu só queria mesmo dizer que te amo e que, depois desses anos todos, eu continuo exageradamente apaixonada por você. É, eu sei que eu nunca disse nada, mas você sempre deixou bem claro que éramos como irmãos e eu sempre quis ser mais que isso, sempre quis ser mulher, ser boa pra você. O que era impossível, olha o tipo de garota que se envolvia com você, era do tipo perfeita, do tipo que te satisfazia de corpo e alma, muito mais corpo do que alma, mas te satisfazia e eu ficava olhando, meio de canto, com o coração destroçado, você se aventurando e no começo eu chorava com raiva de mim mesma por não ser daquele jeito, mas acabei me acostumando, a gente se acomoda a ser o que é, pra evitar sofrer mais do que já tá sofrendo. Pode parecer que não faz muito sentido, que é só um efeito do álcool, aliás, dediquei um copo de hi-fi a você, sei que é o seu drink favorito, eu não queria que nossa amizade tomasse esse rumo, mas eu nunca consegui controlar muito bem minhas emoções, então eu acabei me apaixonando, meti os pés pelas mãos e neguei até o fim que todas aquelas indiretas eram pra você. Imaginei que você sentia ciúmes de mim, imaginei que você tocaria a minha campainha não pra ir pra balada, mas pra me chamar pra um jantar romântico, imaginei que você me abraçaria em noites chuvosas e me mimaria até que eu caísse no sono e o velaria como acontece nos filmes, sabe? Imaginei porque achei que esse era o jeito mais fácil disso se realizar e vi que me tranquei e te tranquei no meu mundo de fantasias. Agora que eu percebi isso, precisava te ligar e te contar. Você ainda tá aí? Você quer me amar?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Trouxe uma carta pra você.


Oi. Eu trouxe uma carta pra você.
Você disse que não se importava e que nada ia nos separar, que era pra eu ficar tranqüilo (nada mesmo, nem sua mãe escandalizando nossa diferença de dezenove anos de idade), afinal, você já tinha dezoito e sabia se cuidar.
Você disse também que me apoiaria em todos os momentos, como quando eu não passei naquele concurso por dois míseros pontos.
Você prometeu que seria eterno e que cada dia de tristeza ao seu lado seria recompensado com dez de alegria.
Eu nunca soube amar direito, nem demonstrar tudo o que sentia. Você colocava a culpa no meu signo (ah, essa sua mania de interpretar meu mapa astral a cada mudança de Lua...) e na minha infância, mas sempre ria e compreendia, como se pra você bastasse que eu sentisse e mais nada. No fundo eu sabia que você merecia mais do que um “eu te amo”, daquele jeito, meio morno, no final das ligações, só não achava que eu pudesse fazer mais que aquilo.
Seu sorriso me iluminava, seu toque me fazia perder o ar e quando seus braços me envolviam, eu me sentia protegido por completo.
Agora estou só e sem entender muito bem por que você não está aqui comigo. Você foi naquele feriado e agora não vai mais voltar. Você quebrou as promessas e me deixou antes do que havia dito.
Cada segundo sem você dói mais do que eu posso suportar e, mesmo eu não tendo sido o melhor em expressar minhas emoções, eu suplico sua volta (meio cético, você sabe que eu nunca acreditei muito nessas coisas) para Deus ou qualquer um que possa fazê-lo.
Espero que a chuva não borre nem arraste essa carta do seu túmulo. Sinto muito não ter podido dizer tudo isso a tempo. 
Hey, você me deve centenas de dias de alegria. Te amo, pela eternidade.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Frieza

       Uma neblina forte não deixava nada ser visto naquele momento. Mas tudo já tinha passado mesmo. Nada, tudo, momento, passado. Era guiada por esses contrastes. Detestava passividades, mas agia passivamente quando o assunto era saudade. E não daria um passo para correr para os braços dele. Orgulho e cansaço. Cansou-se de falar de amor pra quem não sabia nem sequer amar e orgulhava-se desta atitude. “Superei.” Um sorriso falsamente contagiante tomava sua face. “Não superou não.” Era o que o coração, ou qualquer parte do corpo mais sensata que as cordas vocais, dizia.
       Para entender o que havia acontecido não é necessário ter muita experiência no quesito coração partido, ele a trocou por outras, um prenúncio que ela decidiu não escutar. As cicatrizes no rosto e no ombro direito estavam visíveis, por conta da regata que vestia. Ele a amava, ela podia perceber pelos sms desesperados que vinha recebendo durante as últimas semanas. Doía nela também, mas estava disposta a seguir em frente, para evitar a dor, por mais pavor que tivesse da solidão. Precisava apenas de um tempo para pensar. Sentou-se embaixo de um carvalho castigado pela estação gelada e suspirou, tremendo.
        Ele não sentia tanto quanto parecia naquelas mensagens de texto, o falso drama sempre o acompanhou. Estava no bar com os amigos, tomando a quarta dose de vodka distraidamente, lembrando-se de quando a controlava para que não bebesse demais. Fizeram um pacto: nenhuma gota de álcool os dois beberiam a partir daquela data. Mais uma promessa quebrada, o que àquela altura não significava nada.
       Muitas brigas, cacos de um relacionamento abalado espalhados pelo chão. Explosões de raiva por parte dele e gritos de dor por parte dela. Não devia ter acertado aquele vaso de porcelana em seu ombro, mas era o único jeito de calá-la. Onde estaria agora? Uma ruiva passando o tirou de qualquer pensamento. “Psiu!” – Chamou-a. A ruiva sentou-se a seu lado, enquanto os amigos admiravam a atitude dele. “Que belo par de... Olhos!” – Disse encarando o decote do vestido igualmente vermelho.
       Não demorou muito para que saíssem do bar rumo ao apartamento dele. Esquecera o celular sobre a mesa. O aparelho vibrava sem parar. “Ih, gente! Oito ligações da maluca.” – O menos embriagado falou e os outros começaram a imitá-la. “Que ela fique bem... bem longe da gente, aquela manguaceira!”
       Ela ali. Frio, solidão, desprotegida. A ignorância dele venceu. Desistiu de ligar e de viver também. Sempre dizia que adorava o inverno, deixaria ser levada por ele. O corpo foi encontrado três dias depois.

domingo, 18 de setembro de 2011

Poema em prosa - Bata.

Bata, coração. Mas bata bem devagar. Exato. Lento. Como se estivesse estupefato. Tira essa dor daí de dentro. E bata para ninguém escutar. Bata arrastado, fraco, arrasado.
Como se esta fosse a última vez.
Como se tudo que construiu houvesse tombado.
E, embora se sinta
o                                                              co
Bata lento.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

"Hoy no necesito que me digas que todo está bien. Hoy sé quién soy. Perdida en mis recuerdos, por fin me encontré. Y cada despertar es una nueva oportunidad para cambiar el rumbo, para disfrutar la vida. Y cada anochecer es una cita entre misterio y realidad para que no se te olvide soñar. Hoy quiero agradecer por el simple hecho de estar viva y ser parte de la magia que nos rodea en esta extraña realidad..."


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Mar de Amargura

“Você vai desejar nunca ter me conhecido.”

     Enquanto eu andava pelo centro velho de São Paulo, murmurava incrédula cada palavra dita por ele. Eu e Rodrigo fomos colegas de faculdade e trabalhávamos juntos, algo como almas gêmeas. Éramos mais que isso, éramos noivos e um futuro cheio de felicidade nos esperava.
     Tinha sido dispensada dez meses antes do casamento e uma semana antes de fechar os negócios com a igreja, o buffet e a decoradora. Porém a dor era tão grande que isso se tornara apenas um pequeno detalhe.
     – Isso não vai ficar assim, Mariana. – Minha consciência me alertou. – Sabe, Valéria, no fundo eu acho que já sabia que isso ia acontecer. É como se um homem não pudesse fugir a seu destino. Ou uma mulher, no meu caso. – Comentei com a minha mais nova melhor amiga.
     Eu olhava as pessoas em volta e tentava me consolar, mas só me entristecia mais. O pior era ter que fingir que estava tudo bem. É que eu sempre fui assim, dura por fora, mas maria mole por dentro, sempre escondi de todos o que sentia e isso me fez evitar diversas decepções. Menos essa. Decidi, por conta própria, ter meia hora a mais de almoço. Não me importaria em ser recriminada por meu chefe, eu já não tinha perspectiva de vida. Entrei num café e escutei, um pouco que sem querer, uma fala da conversa de duas mulheres que estavam do meu lado. Lembro-me exatamente de quando a morena disse: “Só me senti feliz quando consegui devolver tudo o que ele me fez.”
     E foi a partir daquele momento que eu tomei um novo rumo. Em pensar que tinha cogitado pedir demissão,  mesmo tendo um plano de carreira impecável naquele lugar. Seria muito mais fácil executar meu plano com ele a poucos metros de mim. Trilharia outro caminho porque aquela Mariana doce e delicada tinha morrido ali, naquele café, e no lugar cresceria uma Mariana amargurada, vingativa e infinitamente mais feliz, como a moça de cabelos escuros. Lágrimas rolariam e não mais dos meus olhos. Soltei uma gargalhada e Valéria me mirou assustada.
     – Ah, por favor, Val, quem vê pensa que você é uma santa! Ele merecia, não merecia? - Valéria assentiu.- Então pronto, já que ele merecia, eu fiz! - Sorri inocentemente e ela sorriu de volta.-
     E com toda essa dor eu aprendi o porquê da Terra girar: é para que tudo que vá, volte. Nesse caso voltaria numa intensidade imparável.
     Eu não sei de onde tirei tanta frieza, acho que foi meu coração que cansou de chorar as feridas e as deixou cicatrizarem. Talvez essas cicatrizes me deram toda a força necessária para seguir em frente com meus planos.
     Primeiro eu o fiz achar que estava louco. Troquei as gavetas dele de lugar, apaguei alguns arquivos do computador, peguei o vale refeição da carteira dele e quando ele voltou, após ter passado por um constrangimento terrível na frente dos nossos colegas,  encontrou-o em cima da mesa. Sem falar nas vezes em que alguns documentos sumiram da mesa dele e apareceram misteriosamente em sua pasta, dentro de sua bolsa. O nosso chefe adiantou dez dias de férias, já que Rodrigo disse que estava sobrecarregado, que não dormia direito e devia ser estresse. Não era o estresse. Era eu.
     – Você não se arrepende, Mari? –Valéria abriu a boca pela primeira vez para me perguntar algo.
     – Claro que não, Val. Eu me arrependo de apenas uma coisa: de ter acreditado nas promessas dele.
     Eu queria convencê-lo de que ele estava sofrendo uma conspiração. Depois do período de descanso, eu o olhava com pena. Contei para a secretária que havia boatos de que ele estava para ser despedido e que esse tempo foi o suficiente para o patrão achar alguém à altura para o cargo. Em três dias metade do nosso andar o olhava com dó, em uma semana, todos o miravam assim.  Além de tudo isso, o ascensorista chegou a murmurar um sinto muito quando ele saiu do elevador. Controlei-me ao máximo para não rir da cara dele de pavor. Escondendo a dor também aprendi a esconder o sorriso.
     Eu não sabia que o cafajeste era tão ingênuo ao ponto de me perguntar o que estava acontecendo. Quando fui surpreendida com a questão, apenas respondi um sinto muito, no mesmo tom do ascensorista e olhei no fundo de seus olhos, ele estava a ponto de chorar! E uma felicidade estranha e imensurável tomou conta de mim por dentro. Era apenas o começo. O meu futuro-ex-colega-de-trabalho me perguntou se era melhor pedir demissão do que ser demitido. Respondi que ele deveria esperar até que o chefe lhe comunicasse algo, por que, afinal, boatos ocorriam em qualquer empresa, talvez ele nem fosse dispensado. Não poderia mantê-lo muito longe, meu plano não estava nem na metade ainda.
     Pus cola nas lapiseiras dele, joguei documentos de sua responsabilidade no lixo, formatei seu computador, entiquetei revistas de pornografia com seu nome e fiz com que elas parassem na mesa do chefe. Cada dia acontecia algo. Ele chegou a desconfiar de mim, mas era a palavra de alguém que se julgava perseguido contra a de uma funcionária extremamente competente e responsável, que vivia consertando seus erros. Além do mais, tínhamos o mesmo cargo, não haveria motivos para eu querer tomar o lugar dele.
     Até que ele resolveu pedir afastamento por problemas psicológicos. Foi questão de semanas para o nosso chefe contratar uma recém-formada para ficar no lugar do meu ex-amado, recém-odiado.
    Minhas férias chegaram e o momento de fazê-lo pensar que estava realmente louco também. Cartas anônimas o ameaçando, riscos em seu carro, telefonemas a cobrar com pessoas rindo ao fundo, mandava flores com cartõezinhos de caveira, cheguei até a contratar um rapaz alto e forte para segui-lo por uma semana. Sua casa agora tinha todas as janelas fechadas e as portas trancadas. Ninguém, além dele e da empregada, entrava mais lá. Eu me divertia muito escrevendo aqueles bilhetes, no último eu escrevi: Me veja indo embora com cada parte sua. Não subestime as coisas que posso fazer. Você vai desejar nunca ter me conhecido. Pense em mim nas profundezas do seu desespero. Você vai me pagar na mesma moeda e colher o que plantou. Você vai desejar nunca ter me conhecido.”  Esse era formado por trechos da nossa música favorita da Adele e era para ele perceber que era eu quem fazia tudo aquilo. Isso não provaria nada, porque eu não era a única pessoa do mundo que conhecia a música.
    
– Mas e se ele tivesse chamado a polícia, Ma?
     – Teria sido melhor, eu passaria menos tempo aqui. Na verdade, seria pior, detesto que interrompam meus planos. Do mesmo jeito que os criei, eu que tenho que terminá-los.
     Um tempo depois a empregada dele me ligou, dizendo que pedira demissão, pois o patrão estava insuportavelmente neurótico, não deixava ninguém nem entrar em casa, evitava os parentes e não saía para nenhum lugar, apenas para colocar, e rapidamente, o lixo no cesto de fora. Eu lamentei e disse que era melhor assim, já que ele se recusava a procurar ajuda médica. Desliguei o telefone, caí no chão, contorcendo-me de tanto rir. Não pensei que daria certo logo de cara, foi fácil demais.
     Agora só estaria ele em casa, circunstância e local perfeitos para a ação. O plano era simples, porém os materiais seriam difíceis de encontrar. Eu gastaria muito álcool se contornasse toda a casa, então, enquanto eu fazia minha caminhada matinal, passei por um posto de gasolina. A solução estava ali.
     Voltei para casa e peguei dois regadores no jardim, calculei que aquela quantidade me bastaria. Fui até o posto, deixando o carro a cinco quadras, e contei a típica história de que havia acabado a gasolina. O frentista ofereceu-se para me acompanhar, mas foi fácil dispensá-lo. Com muito cuidado, coloquei os vasilhames cheios de combustível no automóvel e segui rumo ao mercado. Mais três embalagens de querosene, caixas de fósforo e tudo aquilo ferveria, literalmente! A próxima parada seria a casa dele.
     – Até agora eu não acredito... Como você teve coragem, Mari...
     – Eu faria outra pergunta... Como ele teve coragem de fazer tudo aquilo comigo?
     – Mas ele só terminou o noivado... Não havia necessidade de querer matá-lo! Foi melhor que abandoná-la no altar em pleno casamento!
     – Cale-se, Valéria! Ele já paga advogados suficientes para defendê-lo, não precisa de você.
          Desci do carro e espalhei primeiramente a gasolina pelo jardim que havia em frente. Por ser uma área estritamente residencial, ninguém me viu. Peguei a querosene e espalhei pelos cantos e nos fundos. As janelas permaneciam fechadas, por conta do medo do cretino. Ele não sabia o quanto estava me ajudando! Eu sorria tanto, que só de lembrar, meu maxilar dói. Uma caixa de fósforos e eu pude ver o fogo crepitando, gerando um ruído muito satisfatório. A porta de madeira foi a primeira a ser destruída, dando passagem para o fogo adentrar. Eu ouvia seus gritos desesperados e tentava imaginar sua face naquele momento.
     – Eu vou te matar, sua maluca! – Ele gritou de dentro da casa, enquanto tentava fugir das chamas.
     – Não se você morrer primeiro, imbecil! – Eu respondi no mesmo tom.
     Os bombeiros chegaram e, junto a eles, a polícia. Eu não tinha como fugir, mas também acho que nem queria. Ajudaram-no a sair do fogaréu e ele se debatia freneticamente, apontando-me e dizendo que eu era a responsável por tudo aquilo.
     Prestei depoimento e confessei, afinal, a perícia e os vizinhos, que saíram de suas casas assustados com o fogo, confirmariam meu ato. Eu não tinha pensado nas consequências, mas mesmo assim, não me arrependo de nada até hoje. E posso afirmar que faria tudo de novo, se preciso, mas dessa vez, sem dar chance de escape.
     – Então assim você chegou até aqui, certo? – Valéria me perguntou, cautelosa, encarando as grades da cela.
     – Foi sim, Val. E acho que não vou sair tão cedo, não é? Mas agora, conte-me a sua história. Como você chegou até aqui?

Florbela Espanca

"Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade."




segunda-feira, 11 de julho de 2011

Poema vazio - escrito em 2008

Cada lágrima que escorre pelo meu rosto

Me faz pensar

Qual é o preço de gostar de alguém

Sentimentos estirados no chão

À espera de algo que apareça para salvá-los

Nada poderá.

A última que morre se foi

Sem previsão para regressar

Porque o único motivo para seu retorno

Acabou

E só de pensar que um dia cheguei a senti-lo

Um vazio toma conta de mim

E esse ninguém preencherá.


domingo, 10 de julho de 2011

Diálogo Cardíaco



– E se ele não me corresponder?

– Você o conquista.

– E se eu não conseguir?

– Fica como uma experiência. É a melhor forma de aprender.

– Mas vai doer, coração. – A melancolia tomou conta de sua voz, ainda que estivesse só no pensamento.

– Se você tirar a dor de amar, o amor não existirá. Deixe-a para trás, caso ela apareça.

– Sabe o que acontece? Toda vez que eu estou a ponto de me recuperar, eu caio. Você sabe como é e você sabe o quanto machuca.

– E o que você vai fazer? As lembranças dele vivem em você. E a esperança disse que não vai te abandonar.

- É você que as alimenta com cada olhar dele. Eu não posso te controlar.

- Eu não posso me controlar também, sinto muito.

– Eu sei. - Quando estava em silêncio, a imagem dele tomava conta de seus pensamentos.

– Posso bater normalmente agora?

– Você sabe que não. Ele está a uma quadra daqui. A razão me impede de ir até lá e você, ao invés de apoiá-la, coração ingrato, faz com que minhas pernas se movam em direção a ele.

– Eu não quero que você o deixe escapar, como fez em todas as outras vezes, com todos os outros. Você já seu deu conta de que poderia ser e me fazer feliz nesse exato momento se tivesse a companhia de alguém, especialmente a dele? Mas você sempre segue esse monte de massa cinzenta que não sente e que você acha que quer o melhor para você.

– Eu não me arrependo quando sigo minha razão.

– Simplesmente porque você tem vergonha de se arrepender de algo que sequer fez. Você deveria ter tentado todas as outras vezes. E eu sei que você concorda comigo.

– Eu tenho medo!

– E eu tenho pena de você, por levar consigo apenas os beijos nunca dados, os carinhos nunca demonstrados e a pele nunca tocada.

– Quando ele me disser adeus, vai ser pior.

– E se ele nunca te dissesse adeus?

– Ele já abandonou tantas outras... Eu teria o mesmo destino.

– E você prefere seguir o outro, o de seguir sozinha, mesmo sentindo tudo aquilo quando o vê?
– Não sei o que você chama de “tudo aquilo”.

– A palpitação que me faz bater rápido e cansar, o tremor nas pernas, a falta de ar, as lágrimas se formando nos olhos, o sorriso brotando nos lábios. Não negue, eu sei que todas as músicas o lembram, que o perfume dele é único, que todas que se aproximam dele têm segundas intenções, que seu sobrenome combina com o dele e que a foto que você tirou com ele é sua preferida. Está bom para você ou quer que eu estenda a lista?

– Eu não quero que você me convença, coração.

– Eu só quero o melhor para nós dois.

– Eu não quero passar por tudo de novo. As lágrimas derramadas, a dor imensurável, ser ignorada... Não quero sofrer novamente, não quero que você sofra comigo. Não quero me apaixonar por ele. Esqueça-o, coração.

– Não consigo.

– Esqueça-o! - Gritou e sua razão a ajudou. O coração perdera as forças, batia mais lentamente.

– Não posso. - Sussurrou.

– Mas eu posso. É o melhor que faremos, para nós dois. Um dia você me entenderá, coração, a razão é o melhor caminho a se seguir.

Deu meia volta e foi para casa. Chegando lá, chorou. Por não fazer o tipo dele, por saber que nunca seria amada por ele. A desilusão cobriu o coração, que batia suavemente, entristecido por ter perdido mais uma batalha.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Uma música


"Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas." Fernando Pessoa

“Você é legal, você é doce
Mas eu ainda sou um pouco ingênua com meu coração
Quando você está perto eu não respiro
Eu não consigo encontrar as palavras pra falar
Eu sinto faíscas”

Ele provavelmente não percebia, não sei se era por ingenuidade ou apenas por não corresponder meus sentimentos. Eu ficava corada, com a respiração entrecortada e estranhamente feliz todos os dias em que chegava e ele vinha sorrindo me desejando bom dia.

“Mas não quero ficar a fim de você
Se você não está procurando por um amor verdadeiro
Não, eu não quero começar a ver você
Se eu não puder ser a única para você”

Completamente o meu oposto. E aquela história de que os opostos se atraem a cada dia fazia mais sentido para sim. Eu lutava tanto para não me apaixonar, porque eu pressentia (e temia) que doeria mais do que eu poderia suportar.

“Então me diga
Quando não estiver tudo bem
Quando não estiver normal
Você vai tentar me fazer sentir melhor?
Vai dizer que está tudo certo?
Você vai dizer que está tudo bem?
Você vai ficar comigo aconteça o que acontecer?
Ou fugir...
"Diga que dará certo
Que vai ficar tudo bem"
Diga ok!”

O tempo foi passando tão rápido que, quando me dei conta, já estava irrevogavelmente apaixonada. Com certeza era carência, já que ninguém tinha se importado tanto comigo em toda minha vida. Eu escondi, sufoquei, tranquei em meu coração todas as reações que você me causava. Não estava nada normal e ele conseguia perceber isso antes de mim mesma.

“Quando você liga eu não sei
Se devo atender o telefone toda vez
Eu não sou como todas as minhas amigas
Que ligam para os garotos, eu sou tão tímida
Mas eu não quero ficar a fim de você
Se você não me tratar da maneira certa
Sabe, eu só posso começar a ver você
Se você puder fazer o meu coração se sentir seguro”

No identificador de chamadas aparecia seu nome e eu enrubescia ao ouvir a voz dele. Eu me sentia ao mesmo tempo amedrontada e segura, eu não sabia que se passava comigo, então achava melhor ignorar todas aquelas sensações, inclusive a angústia que amargava minha garganta quando ele não ligava. Ele me tratava apenas como melhor amiga, obviamente, e eu nunca soube se algum dia ele pensou que pudéssemos ser algo mais. Provavelmente eu nunca saberei disso, provavelmente ele nunca pensou nisso.


“Quando não estiver tudo bem
Quando não estiver normal
Você vai tentar me fazer sentir melhor?
Vai dizer que está tudo certo? (Diga Tudo certo)
Você vai dizer que está tudo bem? (Diga ok)
Você vai ficar comigo aconteça o que acontecer?
Ou fugir...
"Diga que dará certo
Que vai ficar tudo bem
Não fuja, não fuja"”

Ele me consolou quando eu passei pelos piores momentos desde que havíamos nos conhecido. Ele me conhecia muito bem e estava sempre na hora certa pronto para me ouvir. Dizia sempre que tudo ficaria bem e que eu apenas precisava dormir para acordar disposta a encarar tudo. Eu apenas precisava ouvir a voz dele para encarar tudo.


“Me deixe saber se vai ser você
Garoto, você tem algumas coisas a provar
Me deixe saber que você vai me manter segura
Eu não quero que você fuja
Então me deixe saber que você vai me ligar na hora
Me deixe saber que você não vai ser tímido
Você vai enxugar minhas lágrimas?
Você vai me abraçar apertado?”

Vivemos infinitas risadas, derrubamos milhares de lágrimas juntos e eu precisava dele com uma frequência e uma intensidade indescritíveis. Ele poderia desaparecer da minha vida se quisesse e isso era o que eu mais temia, devido à distância que já nos separava havia alguns meses. Eu sentia falta dos seus abraços diários, do seu sorriso encantador e de suas provocações que me irritavam, mas que me faziam sorrir após breves minutos.

“Quando não estiver tudo bem
Quando não estiver normal
Você vai tentar me fazer sentir melhor?
Vai dizer que está tudo certo? (Diga Tudo certo)
Você vai dizer que está tudo bem? (Diga ok)
Você vai ficar comigo aconteça o que acontecer?
Ou fugir...
"Diga que dará certo
Que vai ficar tudo bem"
Diga que está tudo bem
"Não fuja, não fuja"
"Diga que vai ficar tudo certo
Diga que vai ficar tudo bem, não fuja"
Você vai dizer que está tudo ok?
"Diga que vai ficar tudo certo
Diga que vai ficar tudo bem, não fuja"”

Ele não podia ter desaparecido, eu precisava como nunca das palavras dele, precisava escutar sua risada indiscreta, precisava ouvir a voz dele para poder respirar naquele momento. Tentei ligar, mas desliguei antes do segundo toque, por orgulho, por timidez e por medo de ser rejeitada. Todas as promessas dele passaram pela minha cabeça na mais alta velocidade, eu me lembrava de todas, e, principalmente, da que ele não havia cumprido: a de nunca me abandonar.
Todos os momentos que passamos juntos queriam sair pela minha garganta em forma de um grito de dor.
Mas eu ainda tinha a esperança de ouvir aquelas cinco palavras que me faziam ter ânimo para enfrentar tudo: Tudo ficará bem, minha querida.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Escolha

De lá do céu, olhava para o inferno através de um vulcão. Era apaixonada por ele desde viva e vê-lo pagar pelo que fez em vida naquele lugar doía nela.
Gritava junto com ele, podia ouvi-lo, mas ele não podia ouvi-la.
Tentou sair do céu pelo mesmo lugar que entrou, em vão. Vagou durante horas procurando uma saída, até que alguém a chamou docemente oferecendo ajuda.
Aceitou, era inocente o suficiente para não perceber más intenções. Por isso estava no céu, talvez. O alguém, vestido de vermelho, esticou a mão para puxá-la para baixo. E assim o fez. Em poucos minutos estava frente a frente com seu amado. Que agora gargalhava junto aos outros, sem nenhuma marca das punições.
Tentou abraçá-lo e ele se desfez, tornou-se pó. Desesperou-se e clamou por ajuda divina.
Tarde demais, querida - um coro a colocou a par da situação. Olhou para cima e não conseguiu ver o céu.
Você teve sua escolha, seja bem vinda - o coro cantou. Tinha entendido agora o livre-arbítrio e nada mais lhe restava, a não ser perecer eternamente lá.

sábado, 5 de março de 2011

Pode ser...

"Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia."
Clarice Lispector

domingo, 27 de fevereiro de 2011

La lluvia

“La lluvia hoy mojará mi ropa si no estás aquí

Si tú no estás me duelen más los años

Las heridas me hacen daños

Si no vuelvo a oír tu voz...” ♪

Caminhava sob a chuva, sem vontade alguma de voltar para casa. Fariam 6 anos de namoro, caso ele estivesse lá. Felizes, juntos, talvez noivos... Mas há dois anos ele havia desaparecido sem deixar nenhum rastro. E, desde 20 de fevereiro de 2009, a vida deixou de ter sentido para ela.

Já havia doído tanto que a ferida cicatrizara-se sozinha, sem incomodar como antes. Ao invés de chorar descontroladamente ao ver cada coisa que o lembrava, sorria. Deu centenas de sorrisos para esconder milhares de lágrimas.

Buscou dez, vinte, até quarenta razões para ele ter sumido naquele inverno, mas nenhuma tinha senso. Ele não fugiria com outra mulher, não, isso jamais. Acreditava que ele havia sido sequestrado por alguém que não pediria resgate ou que talvez ele quisesse um tempo só para ele. Porém dois anos era tempo demais.

Conheciam-se desde a infância, estudaram sempre juntos, por morarem em cidade pequena. Não se desgrudavam por um só segundo, desde quando eram apenas melhores amigos. Sabiam tudo que se passava com o outro, não havia segredos entre eles.

“If someone said three years from now you'd be long gone

I'd stand up and punch them out, cause they're all wrong

I know better, cause you said forever

And ever... Who knew...” ♪

Mais de 700 dias jogados fora pensando nele e em sua ausência. Eram incalculáveis as chances que ela havia perdido, por esperar uma volta repentina. A família já havia desistido de tentar reerguê-la. Pensavam que quando chegasse ao limite, pediria ajuda para sair daquela situação. Mas parecia que ela adorava acomodar-se ao fundo do poço com suas recordações e seus falsos sorrisos.

Tantas promessas feitas para que ele voltasse que nem ela se lembrava de todas. Lembrava-se apenas de sentir falta dele. Cada vez que fechava os olhos, via seus olhos verdes. Guardava na lembrança o último beijo que deram. Cada dia que passava era como se o sol não nascesse. Se ele não estava com ela, ela perdia a essência de ser. E aquele domingo chuvoso acentuava bem isso.

Também poderia ser diferente. Ela poderia ter descoberto uma traição, alguém poderia ter surgido na vida dele ou o amor poderia ter acabado. Ela preferiria que fosse assim, já que teria raiva dele, ao invés de sentir uma saudade incontrolável.

Sentou-se na guia da calçada, cabisbaixa, enquanto sentia a chuva se misturar a suas lágrimas. Fraquejou por não aguentar mais forçar sorrisos. Ele não tinha o direito de fazer aquilo, não com ela. Soluçava cansada de esperar e de inventar desculpas para não continuar sua vida, mesmo após todo esse tempo.

Ignorou quem se sentou ao seu lado, queria que fossem à merda todos os que riam de seu desespero. Um abraço caloroso a envolveu e o choro dele a despertou do transe. A feição era a mesma, exceto pela barba. O perfume ele havia trocado, mas não quis pensar em mais nada e o beijou. As lágrimas de ambos se misturavam aos sorrisos. Parecia até que não se viam há apenas algumas semanas.

“Um dia eu voltaria.” – Ele disse fitando-a.
“Eu nunca duvidei disso.” – Ela respondeu ternamente.

Enquanto a noite caía, aninharam-se nos braços um do outro. As perguntas, provavelmente, não seriam feitas. A felicidade não poderia ir embora outra vez.

“Nubes, viento, miedo, lluvia, noches grises ni una luna

Otro invierno de oscuridad

Tú me besas, tú me curas

Tu calor y tu ternura no lo dejan entrar...” ♪

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Se eu morrer antes de você

"Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas? Sim? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe por quê? Porque ser seu amigo já é um pedaço dele!"


Vinicius de Moraes

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Casual

O sol tentava escapar das nuvens enquanto seu coração futilmente apagava as lembranças daquela noite. Havia tempos que o mundo não tinha mais sentido, mas ainda restava a esperança de reencontrá-lo. Mas nem ela nem a esperança sabiam onde.

O conflito entre razão e emoção. Droga! Isso sempre a atormentava. O coração, a parte idiota, iludida e covarde, buscava sem cessar uma maneira de se entregar totalmente a ele, enquanto a razão se esquivava, lembrando-a de que ela sabia o que aconteceria horas depois.

Ele finge que a ama, ela se entrega e crê. Ele desaparece, sabe-se lá como, e ela se perde pelas ruas, buscando-o. Já havia dois meses que esse jogo de sentimentos começara.
Radial Leste, dezoito horas, ela seguia a pé desde a Móoca, já chegando no Belém. Tanto barulho, tanta solidão, tantas pessoas dentro de tantos carros... Parados. Tanto quanto sua mente, que já desistia de convencer o coração. Andava sem rumo e sua casa estava bem distante dali.
O nome dele ela não sabia, também não sabia
nem onde nem se trabalhava. Preferia acreditar que ele era um anjo do amor, ou da dor. E qual é mesmo a linha que separa essas duas sensações? Mas, mesmo sabendo que doeria, aceitou viver assim.

Conheceram-se numa noite na Vila Madalena, Rua Aspicuelta, lembrava-se bem. Ela não gostava de bares ou baladas, mas, após o pessoal do trabalho muito insistir, acabou cedendo. Trocou alguns olhares com ele e, de repente, o garçom lhe entregou um guardanapo com um número de telefone e um recado: “Espero que você me ligue, ou, ao menos, me dê o seu número.” Uma gargalhada histérica de sua colega de trabalho contagiou a mesa e várias gracinhas foram ditas. Na outra mesa, na que ele estava, não foi diferente. O admirador-nem-tão-secreto possuía uma risada doce, quase que infantil, que a fez sorrir discretamente. Mandou de volta seu número pelo garçom, que estava acostumado com este tipo de xaveco.


Já deveria saber que as coisas não funcionam tão bem assim. O primeiro encontro foi uma maravilha e acabou num quarto de um motel que mais parecia um chiqueiro. Na manhã seguinte, estavam apenas o dinheiro e um bilhete escrito às pres
sas dizendo adeus no criado-mudo. Sentiu sua garganta sufocá-la e algumas lágrimas rolaram por seu rosto. Usada, suja e despenteada. Como se tivesse sido vítima de um estupro concedido. Vítima, só podia ser gozação! O destino e a tal conspiração universal riam. Ela havia procurado isso e não tinha como fugir desse fato. Algo irrefutável.

Remoeu aquela noite por madrugadas inteiras, julgando-se vulgar e desvalorizada. Uma mistura de arrependimento, orgulho e insegurança a fez apagar o número dele de seu celular, caso houvesse algum ímpeto de ligar para ele. Ou caso ele ligasse e ela não quisesse atender.
Um sms foi mandado como pedido desculpas, três semanas depois. Não adiantara ela apagar o número, assim que o viu no visor, sabia quem era. Ele se justificou, dizendo que recebeu uma ligação urgente do irmão e marcou outro encontro. Ela foi, pensando que seria uma boa oportunidade de dar-lhe um tapa na cara. Acabaram no banco de trás do carro, que tinha sido estacionado numa rua deserta, após ele sussurrar que a adorava. Enquanto sua consciência desaprovava a atitude, seu corpo e seu coração agiam, si
ncronicamente, em concordância.


Ele a deixou no metrô, após ela muito insistir. Não queria que ele soubesse onde ela morava, tinha medo do que aconteceria caso ele subisse em seu apartamento. Tentou ouvir a voz da razão, pelo menos uma vez. Ele sorriu e ela se despediu com um aceno, entrando na estação logo depois.

O mesmo arrependimento bateu à porta. Pensava sobre sua história de amor. Amor? Desta vez o destino gargalhou. Ele nunca diria que a amava e estava na hora de ela escolher se queria viver uma grande história de amor ou apenas umas noites de sexo casual. Deixou que o tempo escolhesse, já que não tinha coragem suficiente para tan
to.


Ligou o celular pela manhã, dormia com o aparelho desligado, e se deparou com uma mensagem nova na caixa postal. Discou o número para ouvir o recado a contra gosto, pois seus créditos iriam pelo ralo apenas para ela ouvir mais uma proposta de mudança de plano da operadora. Seus devaneios foram interrompidos por uma voz conhecida, a dele. Dizia para se encontrarem dali a duas semanas. Ela mandou um sms como resposta, agradecendo o convite, mas que não poderia ir por causa de uma festa de família. Na verdade, não queria ir porque estava envergonhada de si mesma.

E um mês depois daquela mensagem na caixa postal, ela deixou de ser orgulhosa e o convidou para ir ao Parque do Ibirapuera. Mentalizou todas as formas que ele diria não, antes de ligar, para não se desiludir, gostava de pensar nas piores possibilidades para evitar uma decepção. No final das contas, ele aceitou e eles combinaram de se encontrar no final da tarde do próximo sábado.

Depois de muito conversarem e por muita insistência da parte dele, terminaram a noite no banco de trás do carro dele de novo. Todas as sensações que ela poderia sentir se misturavam naquele momento fazendo-a perder a consciência do próprio fato de existir. Após vestirem as roupas, ele a deixou no metrô novamente e ela se sentiu mais suja do que na primeira vez que isso ocorreu e prometeu a si mesma que seria a última vez que o veria.

Trocou o número do celular e extinguiu a pequena vida social que tinha. Andava pelas ruas sem saber muito bem aonde ir, depois que saía do trabalho. E pensava nos dois meses que já passaram desde que o conheceu. Limitava-se a apenas visitar alguns parentes aos finais de semana. Uma de suas tias pediu-lhe que fosse ao aeroporto buscar a prima, que vinha da Alemanha, depois de seis meses de intercâmbio, que chegaria no próximo sábado. Cedeu de má vontade.

Quando se deu conta, já era a hora de sair de casa para ir até o aeroporto. Pegou o carro da tia emprestado e foi em direção a Guarulhos. Corria até a portão de desembarque quando viu um vulto conhecido. Ele estava em sua frente e ela não conseguia falar. As pernas tremeram a visão embaçou-se. Não sentia nada além das batidas rápidas do coração e da falta de ar. Sua expressão tornou-se algo vazio e quando ele sorriu o que estava em volta desabou. Queria correr até ele, perguntar aonde e por que ele ia com aquela mala gigante, queria abraçá-lo e marcar outro encontro, queria ir com ele. Ele sorriu e disse que estava indo a Paris. Murmurou que estava atrasado e se afastou depressa, sem ao menos acenar. Ela continuou parada no mesmo lugar, sem enxergar nada ao redor. Lembranças passaram a mil por hora em sua mente e lembrou-se de sua promessa. Aquela não tinha sido a última vez.