Deixe-me aqui,
assim, instável, vulnerável ao mundo, que eu acho que sei me cuidar, minhas
certezas são incertas, minhas atitudes também, mas eu vou tropeçando e
acertando, fazendo mais o primeiro que o segundo, mas olha só, você nunca me
viu caída, não precisa se preocupar, eu aprendi a me erguer sozinha, eu preciso
da tua mão, mas se ela não estiver aqui, tudo bem, eu já aprendi a me virar
assim, eu já cansei de olhar pro lado e perceber que você não está lá, aí eu me
acostumei a estar sem que você esteja, a apostar todas as minhas fichas sabendo
que não terei recompensa, pode até ser que doa, mas a dor não é minha inimiga,
é companhia, não me ponha contra a parede, eu não estou exigindo nada de você,
prefiro que não queira saber nada de mim, deixe-me aqui, assim, como estou,
pode ir, meus caprichos eu mesma os cumpro, minhas crises eu mesma as aguento, eu
sou só um grão de areia, igual a milhares por aí, deixe-me escapar pelos seus
dedos, eu gosto dessa liberdade, veja bem, já passei por muitas tardes sem sol,
você pode roubá-lo de mim, não vai me fazer falta, colora os dias de outras,
vivo bem no preto-e-branco, deixe-me aqui enquanto vejo meu projeto de vida
passar, sou espectadora de mim e prefiro ver esse programa só.
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