domingo, 27 de fevereiro de 2011

La lluvia

“La lluvia hoy mojará mi ropa si no estás aquí

Si tú no estás me duelen más los años

Las heridas me hacen daños

Si no vuelvo a oír tu voz...” ♪

Caminhava sob a chuva, sem vontade alguma de voltar para casa. Fariam 6 anos de namoro, caso ele estivesse lá. Felizes, juntos, talvez noivos... Mas há dois anos ele havia desaparecido sem deixar nenhum rastro. E, desde 20 de fevereiro de 2009, a vida deixou de ter sentido para ela.

Já havia doído tanto que a ferida cicatrizara-se sozinha, sem incomodar como antes. Ao invés de chorar descontroladamente ao ver cada coisa que o lembrava, sorria. Deu centenas de sorrisos para esconder milhares de lágrimas.

Buscou dez, vinte, até quarenta razões para ele ter sumido naquele inverno, mas nenhuma tinha senso. Ele não fugiria com outra mulher, não, isso jamais. Acreditava que ele havia sido sequestrado por alguém que não pediria resgate ou que talvez ele quisesse um tempo só para ele. Porém dois anos era tempo demais.

Conheciam-se desde a infância, estudaram sempre juntos, por morarem em cidade pequena. Não se desgrudavam por um só segundo, desde quando eram apenas melhores amigos. Sabiam tudo que se passava com o outro, não havia segredos entre eles.

“If someone said three years from now you'd be long gone

I'd stand up and punch them out, cause they're all wrong

I know better, cause you said forever

And ever... Who knew...” ♪

Mais de 700 dias jogados fora pensando nele e em sua ausência. Eram incalculáveis as chances que ela havia perdido, por esperar uma volta repentina. A família já havia desistido de tentar reerguê-la. Pensavam que quando chegasse ao limite, pediria ajuda para sair daquela situação. Mas parecia que ela adorava acomodar-se ao fundo do poço com suas recordações e seus falsos sorrisos.

Tantas promessas feitas para que ele voltasse que nem ela se lembrava de todas. Lembrava-se apenas de sentir falta dele. Cada vez que fechava os olhos, via seus olhos verdes. Guardava na lembrança o último beijo que deram. Cada dia que passava era como se o sol não nascesse. Se ele não estava com ela, ela perdia a essência de ser. E aquele domingo chuvoso acentuava bem isso.

Também poderia ser diferente. Ela poderia ter descoberto uma traição, alguém poderia ter surgido na vida dele ou o amor poderia ter acabado. Ela preferiria que fosse assim, já que teria raiva dele, ao invés de sentir uma saudade incontrolável.

Sentou-se na guia da calçada, cabisbaixa, enquanto sentia a chuva se misturar a suas lágrimas. Fraquejou por não aguentar mais forçar sorrisos. Ele não tinha o direito de fazer aquilo, não com ela. Soluçava cansada de esperar e de inventar desculpas para não continuar sua vida, mesmo após todo esse tempo.

Ignorou quem se sentou ao seu lado, queria que fossem à merda todos os que riam de seu desespero. Um abraço caloroso a envolveu e o choro dele a despertou do transe. A feição era a mesma, exceto pela barba. O perfume ele havia trocado, mas não quis pensar em mais nada e o beijou. As lágrimas de ambos se misturavam aos sorrisos. Parecia até que não se viam há apenas algumas semanas.

“Um dia eu voltaria.” – Ele disse fitando-a.
“Eu nunca duvidei disso.” – Ela respondeu ternamente.

Enquanto a noite caía, aninharam-se nos braços um do outro. As perguntas, provavelmente, não seriam feitas. A felicidade não poderia ir embora outra vez.

“Nubes, viento, miedo, lluvia, noches grises ni una luna

Otro invierno de oscuridad

Tú me besas, tú me curas

Tu calor y tu ternura no lo dejan entrar...” ♪

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Se eu morrer antes de você

"Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas? Sim? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu . . . Sabe por quê? Porque ser seu amigo já é um pedaço dele!"


Vinicius de Moraes

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Casual

O sol tentava escapar das nuvens enquanto seu coração futilmente apagava as lembranças daquela noite. Havia tempos que o mundo não tinha mais sentido, mas ainda restava a esperança de reencontrá-lo. Mas nem ela nem a esperança sabiam onde.

O conflito entre razão e emoção. Droga! Isso sempre a atormentava. O coração, a parte idiota, iludida e covarde, buscava sem cessar uma maneira de se entregar totalmente a ele, enquanto a razão se esquivava, lembrando-a de que ela sabia o que aconteceria horas depois.

Ele finge que a ama, ela se entrega e crê. Ele desaparece, sabe-se lá como, e ela se perde pelas ruas, buscando-o. Já havia dois meses que esse jogo de sentimentos começara.
Radial Leste, dezoito horas, ela seguia a pé desde a Móoca, já chegando no Belém. Tanto barulho, tanta solidão, tantas pessoas dentro de tantos carros... Parados. Tanto quanto sua mente, que já desistia de convencer o coração. Andava sem rumo e sua casa estava bem distante dali.
O nome dele ela não sabia, também não sabia
nem onde nem se trabalhava. Preferia acreditar que ele era um anjo do amor, ou da dor. E qual é mesmo a linha que separa essas duas sensações? Mas, mesmo sabendo que doeria, aceitou viver assim.

Conheceram-se numa noite na Vila Madalena, Rua Aspicuelta, lembrava-se bem. Ela não gostava de bares ou baladas, mas, após o pessoal do trabalho muito insistir, acabou cedendo. Trocou alguns olhares com ele e, de repente, o garçom lhe entregou um guardanapo com um número de telefone e um recado: “Espero que você me ligue, ou, ao menos, me dê o seu número.” Uma gargalhada histérica de sua colega de trabalho contagiou a mesa e várias gracinhas foram ditas. Na outra mesa, na que ele estava, não foi diferente. O admirador-nem-tão-secreto possuía uma risada doce, quase que infantil, que a fez sorrir discretamente. Mandou de volta seu número pelo garçom, que estava acostumado com este tipo de xaveco.


Já deveria saber que as coisas não funcionam tão bem assim. O primeiro encontro foi uma maravilha e acabou num quarto de um motel que mais parecia um chiqueiro. Na manhã seguinte, estavam apenas o dinheiro e um bilhete escrito às pres
sas dizendo adeus no criado-mudo. Sentiu sua garganta sufocá-la e algumas lágrimas rolaram por seu rosto. Usada, suja e despenteada. Como se tivesse sido vítima de um estupro concedido. Vítima, só podia ser gozação! O destino e a tal conspiração universal riam. Ela havia procurado isso e não tinha como fugir desse fato. Algo irrefutável.

Remoeu aquela noite por madrugadas inteiras, julgando-se vulgar e desvalorizada. Uma mistura de arrependimento, orgulho e insegurança a fez apagar o número dele de seu celular, caso houvesse algum ímpeto de ligar para ele. Ou caso ele ligasse e ela não quisesse atender.
Um sms foi mandado como pedido desculpas, três semanas depois. Não adiantara ela apagar o número, assim que o viu no visor, sabia quem era. Ele se justificou, dizendo que recebeu uma ligação urgente do irmão e marcou outro encontro. Ela foi, pensando que seria uma boa oportunidade de dar-lhe um tapa na cara. Acabaram no banco de trás do carro, que tinha sido estacionado numa rua deserta, após ele sussurrar que a adorava. Enquanto sua consciência desaprovava a atitude, seu corpo e seu coração agiam, si
ncronicamente, em concordância.


Ele a deixou no metrô, após ela muito insistir. Não queria que ele soubesse onde ela morava, tinha medo do que aconteceria caso ele subisse em seu apartamento. Tentou ouvir a voz da razão, pelo menos uma vez. Ele sorriu e ela se despediu com um aceno, entrando na estação logo depois.

O mesmo arrependimento bateu à porta. Pensava sobre sua história de amor. Amor? Desta vez o destino gargalhou. Ele nunca diria que a amava e estava na hora de ela escolher se queria viver uma grande história de amor ou apenas umas noites de sexo casual. Deixou que o tempo escolhesse, já que não tinha coragem suficiente para tan
to.


Ligou o celular pela manhã, dormia com o aparelho desligado, e se deparou com uma mensagem nova na caixa postal. Discou o número para ouvir o recado a contra gosto, pois seus créditos iriam pelo ralo apenas para ela ouvir mais uma proposta de mudança de plano da operadora. Seus devaneios foram interrompidos por uma voz conhecida, a dele. Dizia para se encontrarem dali a duas semanas. Ela mandou um sms como resposta, agradecendo o convite, mas que não poderia ir por causa de uma festa de família. Na verdade, não queria ir porque estava envergonhada de si mesma.

E um mês depois daquela mensagem na caixa postal, ela deixou de ser orgulhosa e o convidou para ir ao Parque do Ibirapuera. Mentalizou todas as formas que ele diria não, antes de ligar, para não se desiludir, gostava de pensar nas piores possibilidades para evitar uma decepção. No final das contas, ele aceitou e eles combinaram de se encontrar no final da tarde do próximo sábado.

Depois de muito conversarem e por muita insistência da parte dele, terminaram a noite no banco de trás do carro dele de novo. Todas as sensações que ela poderia sentir se misturavam naquele momento fazendo-a perder a consciência do próprio fato de existir. Após vestirem as roupas, ele a deixou no metrô novamente e ela se sentiu mais suja do que na primeira vez que isso ocorreu e prometeu a si mesma que seria a última vez que o veria.

Trocou o número do celular e extinguiu a pequena vida social que tinha. Andava pelas ruas sem saber muito bem aonde ir, depois que saía do trabalho. E pensava nos dois meses que já passaram desde que o conheceu. Limitava-se a apenas visitar alguns parentes aos finais de semana. Uma de suas tias pediu-lhe que fosse ao aeroporto buscar a prima, que vinha da Alemanha, depois de seis meses de intercâmbio, que chegaria no próximo sábado. Cedeu de má vontade.

Quando se deu conta, já era a hora de sair de casa para ir até o aeroporto. Pegou o carro da tia emprestado e foi em direção a Guarulhos. Corria até a portão de desembarque quando viu um vulto conhecido. Ele estava em sua frente e ela não conseguia falar. As pernas tremeram a visão embaçou-se. Não sentia nada além das batidas rápidas do coração e da falta de ar. Sua expressão tornou-se algo vazio e quando ele sorriu o que estava em volta desabou. Queria correr até ele, perguntar aonde e por que ele ia com aquela mala gigante, queria abraçá-lo e marcar outro encontro, queria ir com ele. Ele sorriu e disse que estava indo a Paris. Murmurou que estava atrasado e se afastou depressa, sem ao menos acenar. Ela continuou parada no mesmo lugar, sem enxergar nada ao redor. Lembranças passaram a mil por hora em sua mente e lembrou-se de sua promessa. Aquela não tinha sido a última vez.