sábado, 14 de julho de 2012

Devaneio 2


Deixe-me aqui, assim, instável, vulnerável ao mundo, que eu acho que sei me cuidar, minhas certezas são incertas, minhas atitudes também, mas eu vou tropeçando e acertando, fazendo mais o primeiro que o segundo, mas olha só, você nunca me viu caída, não precisa se preocupar, eu aprendi a me erguer sozinha, eu preciso da tua mão, mas se ela não estiver aqui, tudo bem, eu já aprendi a me virar assim, eu já cansei de olhar pro lado e perceber que você não está lá, aí eu me acostumei a estar sem que você esteja, a apostar todas as minhas fichas sabendo que não terei recompensa, pode até ser que doa, mas a dor não é minha inimiga, é companhia, não me ponha contra a parede, eu não estou exigindo nada de você, prefiro que não queira saber nada de mim, deixe-me aqui, assim, como estou, pode ir, meus caprichos eu mesma os cumpro, minhas crises eu mesma as aguento, eu sou só um grão de areia, igual a milhares por aí, deixe-me escapar pelos seus dedos, eu gosto dessa liberdade, veja bem, já passei por muitas tardes sem sol, você pode roubá-lo de mim, não vai me fazer falta, colora os dias de outras, vivo bem no preto-e-branco, deixe-me aqui enquanto vejo meu projeto de vida passar, sou espectadora de mim e prefiro ver esse programa só.

sábado, 7 de julho de 2012

Devaneio um


Você só queria paz e eu só queria amor (e amar). Um coração sozinho apenas sustenta relações platônicas e eu corro perigo quando você esconde seus sentimentos.
É perigoso sim, eu construo emoções sobre areia movediça e projeto um você que tem grandes chances de existir, só que dentro de outra pessoa, que eu não sei onde está, que eu não consigo encontrar, porque só tenho olhos pro passado e o passado é você.
Você, que eu tanto tento deixar pra lá e que se arrasta atrás de mim, enigmático, cheio de indiretas, contradizendo-se mais a cada atitude (não) tomada.
Falta de atitude que me esgotou ao ponto de me fazer pó em forma de prosa, que pode ser pra você, se você quiser assim.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras de papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?



- Paulo Leminski



domingo, 1 de julho de 2012

Coisas que quero esquecer - Parte 2


Coisas que quero esquecer – Parte 2

“No quiero recordarte más, no me hace bien.”

            Descendo a Rebouças – com seu trânsito infernal – me lembrei de você e de como você odiava andar de ônibus. Fingia tonturas e enjoos e falava alto o quanto estava incomodado por estar ali.
            Eu sempre andando por toda cidade sozinha, já que você preferia ficar em casa, com o ar-condicionado ligado, jogando videogame. Maldito destino, fui me apaixonar por um autêntico burguês.
            Lembrei porque toca na rádio “Sozinho”, do Caetano, aquele que você só não odiava mais que ônibus lotado, aquele mesmo, que você dizia que eu só gostava dele porque faço Letras e é pré-requisito gostar para entrar no curso.

“Fala que me ama, só que é da boca pra fora.”

Preferia que não tivesse dito nada. Somos tão diferentes e eu fui a única que não quis enxergar. Pensei que tivéssemos diferenças que se completassem e não que se excluíssem. Pensei porque penso demais e ajo de menos e é por isso que ficamos tanto tempo juntos (pra mim qualquer tempo desperdiçado é muito tempo).
É, realmente o trânsito nessa cidade está cada dia pior, claro que é mais fácil dizer isso dentro do carro do seu pai do que dentro do ônibus, mas hoje eu consegui sentar na janela e você sabe que eu amo devanear quando consigo um lugar aqui. Já saíram tantas declarações inesperadas só porque eu estava sentada na janela, né? Pena que eu não sinto mais nada do que disse.
E o que você respondia? “Louca.” E eu cantava pra você “Loca, me gustás así de loca, inestable y caprichosa...” E você me mandava parar de idolatrar esses argentinos babacas, fazendo-me chegar a uma simples conclusão: o único babaca da história sempre foi você.
Dizia que eu te diminuía numa tentativa de mascarar uma personalidade manipulada de acordo com os interesses de quem lhe convinha (nunca com os meus, ainda bem), querendo que eu me sentisse culpada por não conseguir conversar com você nada além de assuntos tediosos e rotineiros.
Enquanto balanço as pernas ansiosa para chegar em casa (que merda, ainda tá no cruzamento com a Faria Lima) me controlo para não ficar nauseada, única sensação que consigo ter ao lembrar de você.
Por isso são coisas que quero esquecer, são músicas, cenários, rotinas que lembram você e lembram em quantas janelas eu já não me apoiei para não desabar e chorar ali mesmo dentro do ônibus lotado. Lágrimas que guardei por você não merecer nada que venha de mim, nem meus passeios loucos, nem meus devaneios loucos nem eu louca, louca por você.