- André, o que é curtir a vida pra você?
- Ah, sei lá, Clarice. Dar umas voltas por aí, conhecer
lugares novos, ficar aqui na beira do mar também é curtir a vida.
- Sem bebidas, sem nada, né?
- Sem nada mesmo, nem dinheiro!
- Nunca pensou em viajar sem sair do lugar, André?
- Ih, lá vem você com esses papos estranhos.
- É sério. Tem um lugar aí que...
- Pode parar, Clarice, você sabe que eu não curto essas
coisas.
- Como você diz que não gosta se nunca experimentou?
- Não, sem essa.
- Ok.
Clarice levantou-se e foi em direção ao centro da cidade.
- Hey, Clarice, volta aqui! Vai ficar de cu virado porque eu
não quero usar essas coisas? Volta aqui!
Ele saiu correndo atrás dela, que se deixou alcançar.
- Não, André, eu só vou curtir a vida sozinha!
- Não vai não, vou com você! Menina louca...
Foram correndo de mãos dadas até uma casa na Avenida
Beira-Mar. Apesar de estar tudo escuro, algumas pessoas reconheceram Clarice.
Ela pegou duas bebidas vermelhas e deu um copo para André.
- Não bebo, Clarice.
- Essa é bem docinha, é tipo groselha. Bebe, vai! Vai logo,
André!
Dois minutos depois já não havia nada em nenhum dos copos.
Eufóricos, os dois dançavam no corredor, completamente descompassados.
- Não era groselha aquilo, você me enganou. – Ele dizia
choramingando e bebendo o segundo copo.
- Era doce... Doce sim... Agora eu fiquei doce, igual
caramelo... Vamos, Dré, isso aqui já deu! Vamos cair fora!
- Espera, deixa eu terminar minha bebida! Clari... Clari...
Você é luz, não me lance à escuridão! Tá de noite lá fora, espera amanhecer...
- Que péssima ideia te trazer aqui, filósofo pós-anfetamina!
- Quê? Você me drogou, Clarice? Como você teve coragem? Agora
você tem que me proteger, proteger da escuridão...
- Vamos pra praia, Dré... Vem...
Os dois estavam ofegantes e andavam sem direção. Os carros
pareciam se multiplicar, era impossível atravessar a avenida. Como não enxergavam a cor do farol, decidiram atravessar correndo. Ouviram algumas
buzinas, mas conseguiram encontrar a areia de volta.
- “Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.”
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.”
-
Cala a boca, André! A mocidade não tá perdida!
-
É Drummond, Clarice! Me deixa recitar, me deixa viver!
-
A gente vai viver e é agora! Olha, um barquinho de madeira!
-
Isso deve ter dono...
-
Achado não é roubado, quem perdeu é relaxado, vem!
Ela
o empurrou para dentro do barco, como estavam tontos, o barco pendeu para o
lado direito. Gargalhavam e gritavam, até chamarem atenção das pessoas em
volta.
-
Hey, vocês dois! Meu barco! Aonde vocês pensam que vão? Voltem aqui!
-
Fodeu, Dré, fodeu, rema!
-
Não, Clarice, a gente vai ser preso!
-
Rema!
Os
dois remaram em direção ao alto amar, até caírem exaustos, ele em cima dela.
- Ando
tão cansado, Cla...
- Estamos,
Dré. Nossa... Você só me chama por apelido quando tá bêbado, drogado, por quê?
-
Sei lá... Acho que é porque to meio lento, não consigo completar a palavra.
-
Não... É que você se abre mais quando tá fora de si. Confia em mim sempre, não
quero ter que ficar te dopando sempre pra isso!
-
Você foi uma filha da puta comigo, você sabe que eu não gosto dessas coisas...
-
Achei que você tivesse que viver mais.
-
Acho que a gente já viveu demais, Clarice.
- E
já aguentou coisa demais, problemas demais, preocupações demais... Não vou
aguentar até os cinquenta.
-
Não vou aguentar até ano que vem.
-
Você acha que vinte anos é uma idade boa pra morrer, Dré?
-
Acho.
-
Vamos tentar?
-
Acho que tenho medo.
-
Eu também, André, mas se você tentar comigo, acho que não tenho medo.
-
E como vai ser?
Eles
se sentaram e se encararam.
-
A gente se joga aqui, afunda até nossos pulmões se encherem de água.
-
Isso deve doer, Cla.
-
Não vai doer, Dré. A gente pula no três?
-
Tá, a gente pula.
- Um,
dois... Pera aí, Dré. A gente não pode ir antes de eu fazer um negócio. Fecha
os olhos.
Ele obedeceu e ela o abraçou, também de olhos fechados.
- Eu te amo, André. Desde sempre.
Passando os braços em volta do pescoço dele, ela o trouxe
mais para perto e o beijou.
- Agora a gente pode ir.
-
Agora eu não quero mais ir, Clarice. Quero ficar aqui com você.
Beijaram-se
de novo, e de novo, e de novo, até se reaproximarem da costa. Largaram o barco
num lugar qualquer e saíram a viver.