domingo, 1 de julho de 2012

Coisas que quero esquecer - Parte 2


Coisas que quero esquecer – Parte 2

“No quiero recordarte más, no me hace bien.”

            Descendo a Rebouças – com seu trânsito infernal – me lembrei de você e de como você odiava andar de ônibus. Fingia tonturas e enjoos e falava alto o quanto estava incomodado por estar ali.
            Eu sempre andando por toda cidade sozinha, já que você preferia ficar em casa, com o ar-condicionado ligado, jogando videogame. Maldito destino, fui me apaixonar por um autêntico burguês.
            Lembrei porque toca na rádio “Sozinho”, do Caetano, aquele que você só não odiava mais que ônibus lotado, aquele mesmo, que você dizia que eu só gostava dele porque faço Letras e é pré-requisito gostar para entrar no curso.

“Fala que me ama, só que é da boca pra fora.”

Preferia que não tivesse dito nada. Somos tão diferentes e eu fui a única que não quis enxergar. Pensei que tivéssemos diferenças que se completassem e não que se excluíssem. Pensei porque penso demais e ajo de menos e é por isso que ficamos tanto tempo juntos (pra mim qualquer tempo desperdiçado é muito tempo).
É, realmente o trânsito nessa cidade está cada dia pior, claro que é mais fácil dizer isso dentro do carro do seu pai do que dentro do ônibus, mas hoje eu consegui sentar na janela e você sabe que eu amo devanear quando consigo um lugar aqui. Já saíram tantas declarações inesperadas só porque eu estava sentada na janela, né? Pena que eu não sinto mais nada do que disse.
E o que você respondia? “Louca.” E eu cantava pra você “Loca, me gustás así de loca, inestable y caprichosa...” E você me mandava parar de idolatrar esses argentinos babacas, fazendo-me chegar a uma simples conclusão: o único babaca da história sempre foi você.
Dizia que eu te diminuía numa tentativa de mascarar uma personalidade manipulada de acordo com os interesses de quem lhe convinha (nunca com os meus, ainda bem), querendo que eu me sentisse culpada por não conseguir conversar com você nada além de assuntos tediosos e rotineiros.
Enquanto balanço as pernas ansiosa para chegar em casa (que merda, ainda tá no cruzamento com a Faria Lima) me controlo para não ficar nauseada, única sensação que consigo ter ao lembrar de você.
Por isso são coisas que quero esquecer, são músicas, cenários, rotinas que lembram você e lembram em quantas janelas eu já não me apoiei para não desabar e chorar ali mesmo dentro do ônibus lotado. Lágrimas que guardei por você não merecer nada que venha de mim, nem meus passeios loucos, nem meus devaneios loucos nem eu louca, louca por você.

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