Coisas que quero esquecer – Parte 2
“No quiero recordarte más, no me hace bien.”
Descendo
a Rebouças – com seu trânsito infernal – me lembrei de você e de como você
odiava andar de ônibus. Fingia tonturas e enjoos e falava alto o quanto estava
incomodado por estar ali.
Eu
sempre andando por toda cidade sozinha, já que você preferia ficar em casa, com
o ar-condicionado ligado, jogando videogame. Maldito destino, fui me
apaixonar por um autêntico burguês.
Lembrei
porque toca na rádio “Sozinho”, do Caetano, aquele que você só não odiava mais
que ônibus lotado, aquele mesmo, que você dizia que eu só gostava dele porque
faço Letras e é pré-requisito gostar para entrar no curso.
“Fala
que me ama, só que é da boca pra fora.”
Preferia que não
tivesse dito nada. Somos tão diferentes e eu fui a única que não quis enxergar.
Pensei que tivéssemos diferenças que se completassem e não que se excluíssem.
Pensei porque penso demais e ajo de menos e é por isso que ficamos tanto tempo
juntos (pra mim qualquer tempo desperdiçado é muito tempo).
É, realmente o
trânsito nessa cidade está cada dia pior, claro que é mais fácil dizer isso
dentro do carro do seu pai do que dentro do ônibus, mas hoje eu consegui sentar
na janela e você sabe que eu amo devanear quando consigo um lugar aqui. Já
saíram tantas declarações inesperadas só porque eu estava sentada na janela,
né? Pena que eu não sinto mais nada do que disse.
E o que você
respondia? “Louca.” E eu cantava pra você “Loca, me gustás así de loca,
inestable y caprichosa...” E você me mandava parar de idolatrar esses
argentinos babacas, fazendo-me chegar a uma simples conclusão: o único babaca
da história sempre foi você.
Dizia que eu te
diminuía numa tentativa de mascarar uma personalidade manipulada de acordo com
os interesses de quem lhe convinha (nunca com os meus, ainda bem), querendo que
eu me sentisse culpada por não conseguir conversar com você nada além de
assuntos tediosos e rotineiros.
Enquanto balanço as
pernas ansiosa para chegar em casa (que merda, ainda tá no cruzamento com a
Faria Lima) me controlo para não ficar nauseada, única sensação que consigo ter
ao lembrar de você.
Por isso são coisas
que quero esquecer, são músicas, cenários, rotinas que lembram você e lembram em
quantas janelas eu já não me apoiei para não desabar e chorar ali mesmo dentro
do ônibus lotado. Lágrimas que guardei por você não merecer nada que venha de
mim, nem meus passeios loucos, nem meus devaneios loucos nem eu louca, louca
por você.
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