domingo, 10 de junho de 2012

Muros


Eu o vi na assembleia. Ele de preto, concordando com o que estava sendo dito. As inscrições para o segundo bloco de falas abriram e ele correu.
“Derruba, derruba, derruba o muro, a universidade é de todo mundo.”
Eu a percebi olhando pra mim, claro que percebi, ela não tirava os olhos, as amigas falavam algumas coisas, provavelmente comentavam como o cara que tá conduzindo a assembleia é bonito. Droga, sempre fico nervoso antes de falar.
Olha lá, olha lá! Ele vai falar! Eu cutuquei as meninas e meus olhos brilharam, esperando o que viria.
Terminei minha fala e os aplausos dela eram os mais audíveis. Tudo nela era exagerado, a risada, o tom de voz, principalmente quando eu estava perto. Os gestos dela ficavam mais expansivos quando ela me via, mas eu fingia que ela não estava ali, não conseguia encará-la.
Lembro do dia em que estava gritando feito retardada na assembleia, pulando e apoiando os grevistas, ele estava bem na minha frente, mas eu não estava dando a mínima. Ele sorriu pra mim, me achando uma imbecil de marca maior.
Nunca sabia de que lado ela estava, acho que nem ela deveria saber. Com o passar das semanas, a via cada vez menos na faculdade, era normal, a gente desanima mesmo. Sentia falta de vê-la cantando e dando risada pelo pátio com os amigos.
- Oi. – Sorriso
- Oi. – Sorriso maior ainda
- Complicada essa situação, né?
- Ô... Mas a reitoria deve atender nossas reivindicações em breve, pelo menos parte delas.
- Espero...
- É...
- Bom... Eu vou pra biblioteca. Tchau.
- Tá. Tchau
Decidiram ocupar o campus e meu coração foi à boca quando escutei que ele estava no meio. Não podia deixá-lo lá, eu tinha que fazer alguma coisa.
Estávamos acampados, chovia e fazia frio. Eu não parava de pensar nela um só segundo, mas não queria que ela estivesse ali comigo, porque estaria colocando-a em risco.
No dia seguinte, fui ao campus ver a situação. Cenário de guerra. Pichações, barracas, carteiras espalhadas por todos os lados, fruto de piquetes colocados para impedir a circulação de funcionários.
Avistei-a com sua bolsa rosa, olhando cada canto da universidade, impressionada com o que via. Sei que ela estaria ali, se não fosse tão cheia de medos e incertezas. Ela saiu pelo portão, passando por mim sem me olhar.
Dez minutos depois escutei sirenes e observei sete carros da polícia subindo a rua. Todos pararam em frente à universidade. Não me contive e saí correndo, como se pudesse evitar o que estava por vir. Era óbvio que isso aconteceria a qualquer momento. Não queria que ele fosse levado. Parei e fiquei assistindo, com os olhos marejados. Eram meus colegas sendo levados como criminosos, não entendia que crime haviam cometido e não tinha coragem suficiente para me unir a eles. A ele. Que agora era colocado dentro do carro e me olhava. Eu sentia orgulho dele, eu sentia medo por ele, parecia que eu já tinha visto isso antes. Eu comecei a chorar.
Vê-la com a maquiagem borrada e com a cara de terror me fez querer fugir e abraçá-la. Havia mais de um policial para cada estudante e estávamos todos de cabeça erguida, mesmo sendo levados como animais ao abatedouro. Ela sentou na mureta e permaneceu imóvel, apenas as lágrimas escorriam, encarava a viatura em que estava. Estávamos presos pelo olhar, eu sem esboçar nenhuma reação, ela parecendo que lhe faltava o ar.
As viaturas partiram uma a uma, mas a quarta levava meu coração junto. Por temer o que podia acontecer com ele, não conseguia me mexer, mas tinha que ir para casa. Esperarei passar o medo, enquanto isso fico aqui, escorada nos muros da universidade que ele tanto queria derrubar. 

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