Eu
o vi na assembleia. Ele de preto, concordando com o que estava sendo dito. As
inscrições para o segundo bloco de falas abriram e ele correu.
“Derruba,
derruba, derruba o muro, a universidade é de todo mundo.”
Eu
a percebi olhando pra mim, claro que percebi, ela não tirava os olhos, as
amigas falavam algumas coisas, provavelmente comentavam como o cara que tá conduzindo
a assembleia é bonito. Droga, sempre fico nervoso antes de falar.
Olha
lá, olha lá! Ele vai falar! Eu cutuquei as meninas e meus olhos brilharam,
esperando o que viria.
Terminei
minha fala e os aplausos dela eram os mais audíveis. Tudo nela era exagerado, a
risada, o tom de voz, principalmente quando eu estava perto. Os gestos dela
ficavam mais expansivos quando ela me via, mas eu fingia que ela não estava
ali, não conseguia encará-la.
Lembro
do dia em que estava gritando feito retardada na assembleia, pulando e apoiando
os grevistas, ele estava bem na minha frente, mas eu não estava dando a mínima.
Ele sorriu pra mim, me achando uma imbecil de marca maior.
Nunca
sabia de que lado ela estava, acho que nem ela deveria saber. Com o passar das
semanas, a via cada vez menos na faculdade, era normal, a gente desanima mesmo.
Sentia falta de vê-la cantando e dando risada pelo pátio com os amigos.
-
Oi. – Sorriso
-
Oi. – Sorriso maior ainda
-
Complicada essa situação, né?
-
Ô... Mas a reitoria deve atender nossas reivindicações em breve, pelo menos
parte delas.
-
Espero...
-
É...
-
Bom... Eu vou pra biblioteca. Tchau.
-
Tá. Tchau
Decidiram
ocupar o campus e meu coração foi à boca quando escutei que ele estava no meio.
Não podia deixá-lo lá, eu tinha que fazer alguma coisa.
Estávamos
acampados, chovia e fazia frio. Eu não parava de pensar nela um só segundo, mas
não queria que ela estivesse ali comigo, porque estaria colocando-a em risco.
No
dia seguinte, fui ao campus ver a situação. Cenário de guerra. Pichações,
barracas, carteiras espalhadas por todos os lados, fruto de piquetes colocados para
impedir a circulação de funcionários.
Avistei-a
com sua bolsa rosa, olhando cada canto da universidade, impressionada com o que
via. Sei que ela estaria ali, se não fosse tão cheia de medos e incertezas. Ela
saiu pelo portão, passando por mim sem me olhar.
Dez
minutos depois escutei sirenes e observei sete carros da polícia subindo a rua.
Todos pararam em frente à universidade. Não me contive e saí correndo, como se
pudesse evitar o que estava por vir. Era óbvio que isso aconteceria a qualquer
momento. Não queria que ele fosse levado. Parei e fiquei assistindo, com os
olhos marejados. Eram meus colegas sendo levados como criminosos, não entendia
que crime haviam cometido e não tinha coragem suficiente para me unir a eles. A
ele. Que agora era colocado dentro do carro e me olhava. Eu sentia orgulho dele,
eu sentia medo por ele, parecia que eu já tinha visto isso antes. Eu comecei a
chorar.
Vê-la
com a maquiagem borrada e com a cara de terror me fez querer fugir e abraçá-la.
Havia mais de um policial para cada estudante e estávamos todos de cabeça
erguida, mesmo sendo levados como animais ao abatedouro. Ela sentou na mureta e
permaneceu imóvel, apenas as lágrimas escorriam, encarava a viatura em que
estava. Estávamos presos pelo olhar, eu sem esboçar nenhuma reação, ela
parecendo que lhe faltava o ar.
As
viaturas partiram uma a uma, mas a quarta levava meu coração junto. Por temer o
que podia acontecer com ele, não conseguia me mexer, mas tinha que ir para casa.
Esperarei passar o medo, enquanto isso fico aqui, escorada nos muros da
universidade que ele tanto queria derrubar.
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