domingo, 29 de janeiro de 2012

Tarde demais


- Alice? Seu amigo Ricardo está aqui. Pode mandar subir? – O porteiro anunciou através do interfone. Respondi que sim e me perguntei o que ele estava fazendo na porta do meu prédio às oito da manhã. Milhares de tragédias passaram pela minha mente e quando abri a porta, dei de cara com ele saindo do elevador.
- Pelo amor de Deus, diz que não! – Ele me olhava desesperado.
- Não pra quê, Ricardo? – Ele entrou como um furacão em meu apartamento e se sentou no sofá. – Aconteceu alguma coisa com o seu pai? Com a sua mãe? – Minha voz ia se tornando estridente, como em todas as vezes que ficava nervosa, imaginar algo ruim acontecendo com a Dona Rita me fazia parar de respirar.
- Não. Só me fala que você vai dizer que não.  Ele estava cabisbaixo e tinha a respiração pesada.
- Por quê? O que aconteceu? Vão me chamar pra ir pro Big Brother e eu não to sabendo, é isso? – Ri, meio com lágrimas nos olhos, eu sempre tentava fazer alguma piada, ele já devia esperar. Ricardo então me encarou e pude perceber que ele não havia dormido, os olhos estavam lacrimejando e, em doze anos de amizade, eu nunca tinha o visto chorar.
- O Roberto vai te pedir em casamento.
Perdi o chão e tive que sentar no sofá. Casar? Namorávamos, entre muitas idas e vindas, havia sete anos. Fomos apresentados pelo Ricardo, que já estava cansado de ouvir meus lamentos carentes, de secar minhas lágrimas de solidão, então resolveu me arrumar um namorado. Deu certo, mas meu coração sempre balançava pelo amigo, nada passou muito do platônico. E por medo de ficar sozinha e medo de perder a amizade dele, que é mais importante do que qualquer amor do mundo pra mim, eu me calei. Não sei se fiz bem, mas não me arrependo, tenho esse costume de não me arrepender do que não fiz.
- Casar?
Essa ideia me apavorava. Tinha acabado de terminar meu mestrado e planejava continuar a peregrinação no mundo acadêmico. Casar estava completamente fora dos planos, pelo menos até aquele momento.
- É. E você não pode aceitar.
- Por quê? O Beto me trai? O que você sabe? Por que eu não posso aceitar?
- Achei que você não o amava. – Ele tremia e por um segundo me perguntei se sentia algo a mais por mim. Mas já estava cansada daquela pergunta, vinha desde os meus 16 anos me torturando, tentando achar um resquício de amor num monte que era só de amizade. Sabia que ele não me amava, mas às vezes gostava de imaginar que sim.
- Ricardo... Você sabe que eu amo, do meu jeito. – Ele sabia de tudo que fiz no período em que eu e Roberto ficamos separados. As baladas, as bebedeiras, os homens e as mulheres que me levaram pra cama. Sempre me jurou segredo e sempre cumpriu também.
            Silêncio.  Eu não amava o Beto, estava estampado na minha cara e em meu coração.  Mas eu já beirava os trinta e não podia ficar esperando o príncipe encantado bater a minha porta ou talvez não pudesse esperar que o nada príncipe e muito menos encantado que estava ali na minha frente tomasse alguma atitude mais concreta do que ficar estarrecido no meu sofá.
- Estraguei a surpresa dele então. – Ele disse sem graça, após alguns minutos.
- Por que você veio até aqui gritando pra eu dizer não?
            “Porque eu te amo.” Era o que o meu coração ecoava, era o que meus ouvidos queriam ouvir. Mas conhecia o Ricardo há tempo suficiente pra saber que aquilo nunca sairia da boca dele pra mim.
- Você que sempre dizia que não ia casar, que isso era abrir mão da sua liberdade... Só achei que... – Ele passou a mão nos cabelos, nervoso.- Que você não mudaria de ideia.
- Mas talvez eu tenha mudado. Minha juventude já está acabando, já aproveitei bastante. – Ri sem vontade, ele me acompanhou. – Preciso de alguém que me dê segurança, que queira ficar comigo pelo resto da vida.
            “Me deixa ser essa pessoa.” Ele falaria, se as coisas acontecessem como eu queria. Mas nunca acontecem.
- Ah, sua bicha! – Ele me deu um tapa no ombro. – É, eu não tinha pensado por esse lado. A gente se fala depois. – Saiu porta afora e não se despediu, não olhou pra trás.
            Agora estou no altar, ele está do meu lado direito, acompanhado pela Flávia, nossa amiga. O padre está falando mil coisas que para mim não possuem sentido nenhum. Estou aqui de corpo e não de coração.
- Roberto Piazon, você aceita Maria Clara Fernandes como sua legítima esposa?
- Sim. – Ele me olhou emocionado.
- Maria Clara Fernandes, você aceita Roberto Piazon como seu legítimo esposo? – Olhei para Ricardo. É a sua última chance, seu imbecil. Se ele sair correndo da igreja, eu o sigo. Podemos fugir em seu Corsa estacionado ali perto, podemos fugir para a Bolívia, podemos estar juntos na tristeza e na alegria, na saúde e na doença, em todos os dias de nossas vidas. Roberto pigarreava e minha visão desembaçou. Ricardo me encorajava a dizer sim, sorrindo e aquiescendo. Definitivamente, ser feliz comigo nunca esteve nos planos dele.
- Sim, eu aceito.
- Eu vos declaro marido e mulher.
Um grito de dor ecoa na igreja, é Ricardo. Pensei que algo o tivesse atingido. Ele sai do lugar, em direção à saída.
- Você não podia ter feito isso comigo, com a gente. – Murmurando ao passar por mim.
- Sinto muito se agora é tarde demais, Ricardo. – Grito sem nenhum arrependimento por ter dito sim ao meu marido. Fico com quem me merece.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Reflexão


No auge dos meus dezoitos anos e seis meses, eu me vejo capaz de refletir sobre a vida. Parece pouco, mas quero pelo menos registrar o que acho nesse momento, pra poder resgatá-lo aos trinta e seis anos, ou para esquecê-lo até mesmo antes.
Já percebi que amizades não duram pra sempre, pelo menos não com a mesma intensidade. Culpa minha, que mudo constantemente, até mesmo sem perceber, culpa do destino, que me coloca sempre em lugares nos quais nunca imagino que estarei e me faz mudar, por questões de adaptação e sobrevivência.
Por falar em destino, aprendi que só entendo o que ele faz anos depois. E que isso é ruim, porque me entristeço com as coisas e pessoas que ele tira da minha vida e, apesar de enxergar que foi melhor assim, sempre quero voltar atrás e viver o contrário.
Os amores? Num total de incontáveis, todos não correspondidos (até onde eu sei). Tenho um medo ridículo de assumir meus sentimentos e pago caro por esse comportamento. Percebi que isso não é exclusividade minha e que dói, dói bastante.
Meus pais? Me amam e me apoiam, do jeito deles. Tenho acordos mútuos com eles, me excluo e me calo em segredos às vezes e em outras tagarelo e falo coisas que não interessam. Adoro falar sobre história, literatura, política (apesar das diferenças extremas entre nossos pensamentos nesse assunto, a eterna luta direita versus esquerda), geografia e tudo que é chato e acadêmico com meu pai, que parece uma enciclopédia ambulante.  Com a minha mãe os assuntos giram entre família, esmaltes e culinária e meus planos para o futuro próximo.
Amores, aflições, dores, alegrias, futuro distante, viagens, interesses e maquiagem? Amigos. O número de amigos mais próximos é quase igual ao de amigas. A cada amigo eu confio mais uma coisa do que a outro, deve ser uma estratégia pra não ter os segredos revelados. Meus amigos homens são meus heróis, são os que me salvam da melancolia, os que sempre me escutam e os que mais me causam dor quando perco o contato com eles. Minhas amigas mulheres são minhas confidentes e com elas posso ser retardada e infantil, sem medo de julgamento, as que sabem como eu estou mesmo sem eu falar nada. Sinto ciúmes de todos eles, às vezes, apesar disso ser ridículo. Mas acho que é por causa do amor que sinto.
As únicas duas coisas que eu e meus irmãos temos em comum são o nome do pai na certidão de nascimento e no RG e o elemento água no signo. Cresci longe deles e hoje moro em frente. Não temos nenhum tipo de convivência, mas isso não me entristece, acho que é melhor até. Vejo meus amigos e seus irmãos, vejo meus pais e meus tios e definitivamente não tenho irmãos, na prática.
Tenho que assumir que gosto mil vezes mais da minha família por parte de mãe e que meus primos dessa parte da família são uma das melhores coisas que tenho na vida. Meus primos por parte de pai são legais, mas não passa disso, assim como todos dessa parte.
A faculdade é uma fábrica de loucos, os loucos mais maravilhosos do mundo. Espero manter as amizades que fiz no primeiro ano e que nenhum amigo meu desista do mundo mágico das Letras. E espero também que seja um período inesquecível e que eu esteja fazendo a coisa certa.
     Acho que esgotaram as coisas sobre as quais eu queria refletir. E espero que a vida não esgote minhas possibilidades por enquanto.


Se você chegou até aqui sem bocejar, parabéns! Hahaha
Um texto muito pessoal, assim como a retrospectiva, fugindo um pouco da linha do blog, mas queria um lugar pra guardar isso e ver no futuro se algo mudou (espero que a parte dos amores mude)e me achar tola, imatura e imbecil. É isso.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Vem


Vem, me dá a sua mão, quero ir não sei aonde, fazer não sei quê, por não sei qual motivo, mas quero ir com você, quero que me guie, que me arraste pelo destino.
     Quero que pense em mim numa tarde de segunda, quero que deseje escutar minha voz até enjoar e me mandar calar a boca, quero que sinta o chão cair e que perca a voz ao me encontrar.
     Quero que ria das bobagens que falo, que me deixe falando sozinha quando eu estiver chata, que me odeie por um segundo e me ame por uma eternidade, quero que se irrite e me peça desculpas mesmo assim.
     Vem, mas não venha sem medos, porque eu também os tenho e sinto a necessidade de te amedrontar também, quando a gente tem medo, tem cautela. Não me deixe sozinha, não estaremos nunca só se nos tivermos. Vem, vem cauteloso e sem pressa, pega na minha mão e nos jogue nesse mar desconhecido e não me solte nunca mais.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Pessoas difíceis e sua hipocrisia - Por Milena Reis


Olá.
Aqui estou de novo. Protestando mais uma vez.
É muito difícil lidar com pessoas. E a coisa parece se complicar ainda mais quando temos certos "laços" com essas pessoas.
Muitas vezes, temos a impressão de que apenas nós enxergamos o absurdo das situações. Parece que somos os únicos que vemos como determinadas pessoas são hipócritas, mesquinhas, falsas, arrogantes, alienadas, etc.
Somos obrigados a engolir, não sapos, mas o reino animal inteiro. Tantas coisas vão acontecendo, e não podemos abrir a boca para dar nossa opinião.
Respeito. É essa a desculpa. "Você tem que respeitar fulano".
Mas realmente não entendo como falar a verdade, e tentar trazer a pessoa de volta à realidade pode ser falta de respeito.
Aliás, respeito é uma coisa que essas pessoas não têm por nós. E por quase ninguém, diga-se de passagem.
Cada vez fica mais claro que as pessoas simplesmente colhem o que plantaram. Mas os hipócritas fingem que são anjos de candura, e que suas vidas são puro sofrimento apenas porque nasceram para ser mártires.
São incapazes de perceber que eles são os responsáveis pelos próprios problemas.
E ainda se julgam no direito de sair gritando com as pessoas, derramando podridão através de telefonemas. Fazem questão de deixar a pessoa mal, mal mesmo. Apenas para se sentirem um pouco superiores.
"Onde está Deus quando preciso dele?", elas perguntam débilmente, nos deixando muito nervosos. Deus, ousam colocar a culpa em Deus. Como se elas tivessem aceitado os desafios, e feito o bem quando Deus lhes deu a oportunidade. Como se Deus fosse um ser tão mesquinho quanto elas.
Ora, por favor, onde está o seu bom senso?
Tente procurá-lo, e prometo que tentarei procurar a minha paciência com você.
Obrigada.

A Milena escreve no http://sussurronachuva.blogspot.com/ e vale a pena passar por lá :)