Era
de madrugada. No quarto 32 um casal, ela, abatida pela doença, aparentava ser
muito mais velha do que era realmente. 65 anos e uma espera com semblantes
calmos.
Ele
sussurrava uma história para ela. Apurei os ouvidos para poder escutar.
- Lembra, bem, quando a gente se
conheceu? Na festa da minha prima, você cercada de amigas e eu sozinho, pra
variar, você foi até lá falar comigo, perguntar onde era o banheiro, achando
que eu era o garçom. Éramos do mesmo bairro e você nunca tinha reparado em mim. E
quando a gente foi acampar com uns amigos lá em Paraty? A gente tinha uns 20
anos, uma sanguessuga grudou no meu pé e eu gritava enquanto você tentava tirar.
Até que, com toda calma do mundo, você pediu pra eu segurar na sua mão e
apertá-la quando doesse. Naquele momento eu me dei conta de que era você que eu
realmente amava.
Ela o encarou, pedindo pra que
continuasse.
- Mas passaram uns cinco anos pra que
a gente engatasse. Por que a gente se enrolou tanto?
Ele riu e ela abriu os olhos, lutando
pra continuar acompanhando.
- Nesses cinco anos eu quase me casei
com a Neide e você nunca disse nada, pior ainda, juntou nós dois! E eu
esperando que você me convidasse pra fugir. Pior que isso só quando eu quase perdi
você pra aquele cara que lutava sei lá o que, ia ser a maior perda da minha
vida.
Podia-se perceber nela um sorriso leve
por debaixo dos aparelhos.
- Graças a Deus nada disso aconteceu.
Nesses quarenta anos que passamos juntos, você me deu as maiores alegrias da
minha vida. Te ver de branco, na beira do mar, num casamento nada tradicional,
nossos pais quase enfartaram, mas seu sorriso me fez deixar tudo pra lá. Nunca vou esquecer a primeira vez que peguei
nosso filho no colo, seu primeiro choro. Também não vou esquecer a última vez
que ele disse “tchau, pai, tchau, mãe”, pra nunca mais voltar. E a gente se
perguntava por que perder um filho dói tanto, por que a vida invertia as
ordens, se era o pai que devia morrer primeiro? A vida puxou todos os nossos
tapetes, mas sempre caímos juntos.
O quarto voltou a ficar triste.
- E sempre foi isso que importou.
Nossas viagens, nossa ida ao Chile e você brava com meu portunhol, nossos jogos
de carta no domingo, as músicas tão diferentes, os livros mais ainda! Eu nunca
imaginaria que daria certo com alguém, muito menos com você.
Ela respirou com força. Queria ouvir
até o final, precisava ouvir até o final.
- Eu sei que não estive presente em
todas as horas que deveria, agora eu vejo que queria acordar todos os dias do
teu lado, queria ter dito que te amo antes, queria ter tido tua coragem, teu
ânimo, queria ter dançado com você em todas as festas, ido com você na
montanha-russa daquele parque enferrujado, ter te pedido desculpas em todas as
vezes que estive errado, olha pra mim. Segura, aperta minha mão se doer. – A senhorinha
olhou e já sem muitas forças apertou a mão do marido. – Eu não sei o que fiz de
tão bom pra ter te merecido. Eu não preciso de mais nada nessa vida, eu tive
você.
E tudo ficou estático, os olhares e as
linhas no monitor cardíaco, o aperto na mão. Os enfermeiros interromperam o
silêncio, cobriram-na e retiraram o senhor dali. Ela levou consigo um adeus e
um te amo mortos na garganta, mas vivos nele.
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