quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Última história


Era de madrugada. No quarto 32 um casal, ela, abatida pela doença, aparentava ser muito mais velha do que era realmente. 65 anos e uma espera com semblantes calmos.
Ele sussurrava uma história para ela. Apurei os ouvidos para poder escutar.
          - Lembra, bem, quando a gente se conheceu? Na festa da minha prima, você cercada de amigas e eu sozinho, pra variar, você foi até lá falar comigo, perguntar onde era o banheiro, achando que eu era o garçom. Éramos do mesmo bairro e você nunca tinha reparado em mim. E quando a gente foi acampar com uns amigos lá em Paraty? A gente tinha uns 20 anos, uma sanguessuga grudou no meu pé e eu gritava enquanto você tentava tirar. Até que, com toda calma do mundo, você pediu pra eu segurar na sua mão e apertá-la quando doesse. Naquele momento eu me dei conta de que era você que eu realmente amava.
          Ela o encarou, pedindo pra que continuasse.
          - Mas passaram uns cinco anos pra que a gente engatasse. Por que a gente se enrolou tanto?
          Ele riu e ela abriu os olhos, lutando pra continuar acompanhando.
          - Nesses cinco anos eu quase me casei com a Neide e você nunca disse nada, pior ainda, juntou nós dois! E eu esperando que você me convidasse pra fugir. Pior que isso só quando eu quase perdi você pra aquele cara que lutava sei lá o que, ia ser a maior perda da minha vida.
          Podia-se perceber nela um sorriso leve por debaixo dos aparelhos.
          - Graças a Deus nada disso aconteceu. Nesses quarenta anos que passamos juntos, você me deu as maiores alegrias da minha vida. Te ver de branco, na beira do mar, num casamento nada tradicional, nossos pais quase enfartaram, mas seu sorriso me fez deixar tudo pra lá.  Nunca vou esquecer a primeira vez que peguei nosso filho no colo, seu primeiro choro. Também não vou esquecer a última vez que ele disse “tchau, pai, tchau, mãe”, pra nunca mais voltar. E a gente se perguntava por que perder um filho dói tanto, por que a vida invertia as ordens, se era o pai que devia morrer primeiro? A vida puxou todos os nossos tapetes, mas sempre caímos juntos.
          O quarto voltou a ficar triste.
          - E sempre foi isso que importou. Nossas viagens, nossa ida ao Chile e você brava com meu portunhol, nossos jogos de carta no domingo, as músicas tão diferentes, os livros mais ainda! Eu nunca imaginaria que daria certo com alguém, muito menos com você.
          Ela respirou com força. Queria ouvir até o final, precisava ouvir até o final.
          - Eu sei que não estive presente em todas as horas que deveria, agora eu vejo que queria acordar todos os dias do teu lado, queria ter dito que te amo antes, queria ter tido tua coragem, teu ânimo, queria ter dançado com você em todas as festas, ido com você na montanha-russa daquele parque enferrujado, ter te pedido desculpas em todas as vezes que estive errado, olha pra mim. Segura, aperta minha mão se doer. – A senhorinha olhou e já sem muitas forças apertou a mão do marido. – Eu não sei o que fiz de tão bom pra ter te merecido. Eu não preciso de mais nada nessa vida, eu tive você.
          E tudo ficou estático, os olhares e as linhas no monitor cardíaco, o aperto na mão. Os enfermeiros interromperam o silêncio, cobriram-na e retiraram o senhor dali. Ela levou consigo um adeus e um te amo mortos na garganta, mas vivos nele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário