sábado, 16 de fevereiro de 2013

Enfim, libertos


        - André, o que é curtir a vida pra você?
        - Ah, sei lá, Clarice. Dar umas voltas por aí, conhecer lugares novos, ficar aqui na beira do mar também é curtir a vida.
        - Sem bebidas, sem nada, né?
        - Sem nada mesmo, nem dinheiro!
        - Nunca pensou em viajar sem sair do lugar, André?
        - Ih, lá vem você com esses papos estranhos.
        - É sério. Tem um lugar aí que...
        - Pode parar, Clarice, você sabe que eu não curto essas coisas.
        - Como você diz que não gosta se nunca experimentou?
        - Não, sem essa.
        - Ok.
        Clarice levantou-se e foi em direção ao centro da cidade.
        - Hey, Clarice, volta aqui! Vai ficar de cu virado porque eu não quero usar essas coisas? Volta aqui!
        Ele saiu correndo atrás dela, que se deixou alcançar.
        - Não, André, eu só vou curtir a vida sozinha!
        - Não vai não, vou com você! Menina louca...
        Foram correndo de mãos dadas até uma casa na Avenida Beira-Mar. Apesar de estar tudo escuro, algumas pessoas reconheceram Clarice. Ela pegou duas bebidas vermelhas e deu um copo para André.
        - Não bebo, Clarice.
        - Essa é bem docinha, é tipo groselha. Bebe, vai! Vai logo, André!
        Dois minutos depois já não havia nada em nenhum dos copos. Eufóricos, os dois dançavam no corredor, completamente descompassados.
        - Não era groselha aquilo, você me enganou. – Ele dizia choramingando e bebendo o segundo copo.
        - Era doce... Doce sim... Agora eu fiquei doce, igual caramelo... Vamos, Dré, isso aqui já deu! Vamos cair fora!
        - Espera, deixa eu terminar minha bebida! Clari... Clari... Você é luz, não me lance à escuridão! Tá de noite lá fora, espera amanhecer...
        - Que péssima ideia te trazer aqui, filósofo pós-anfetamina!
        - Quê? Você me drogou, Clarice? Como você teve coragem? Agora você tem que me proteger, proteger da escuridão...
        - Vamos pra praia, Dré... Vem...
        Os dois estavam ofegantes e andavam sem direção. Os carros pareciam se multiplicar, era impossível atravessar a avenida. Como não enxergavam a cor do farol, decidiram atravessar correndo. Ouviram algumas buzinas, mas conseguiram encontrar a areia de volta.
- “Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.”
- Cala a boca, André! A mocidade não tá perdida!
- É Drummond, Clarice! Me deixa recitar, me deixa viver!
- A gente vai viver e é agora! Olha, um barquinho de madeira!
- Isso deve ter dono...
- Achado não é roubado, quem perdeu é relaxado, vem!
Ela o empurrou para dentro do barco, como estavam tontos, o barco pendeu para o lado direito. Gargalhavam e gritavam, até chamarem atenção das pessoas em volta.
- Hey, vocês dois! Meu barco! Aonde vocês pensam que vão? Voltem aqui!
- Fodeu, Dré, fodeu, rema!
- Não, Clarice, a gente vai ser preso!
- Rema!
Os dois remaram em direção ao alto amar, até caírem exaustos, ele em cima dela.
- Ando tão cansado, Cla...
- Estamos, Dré. Nossa... Você só me chama por apelido quando tá bêbado, drogado, por quê?
- Sei lá... Acho que é porque to meio lento, não consigo completar a palavra.
- Não... É que você se abre mais quando tá fora de si. Confia em mim sempre, não quero ter que ficar te dopando sempre pra isso!
- Você foi uma filha da puta comigo, você sabe que eu não gosto dessas coisas...
- Achei que você tivesse que viver mais.
- Acho que a gente já viveu demais, Clarice.
- E já aguentou coisa demais, problemas demais, preocupações demais... Não vou aguentar até os cinquenta.
- Não vou aguentar até ano que vem.
- Você acha que vinte anos é uma idade boa pra morrer, Dré?
- Acho.
- Vamos tentar?
- Acho que tenho medo.
- Eu também, André, mas se você tentar comigo, acho que não tenho medo.
- E como vai ser?
Eles se sentaram e se encararam.
- A gente se joga aqui, afunda até nossos pulmões se encherem de água.
- Isso deve doer, Cla.
- Não vai doer, Dré. A gente pula no três?
- Tá, a gente pula.
- Um, dois... Pera aí, Dré. A gente não pode ir antes de eu fazer um negócio. Fecha os olhos.
        Ele obedeceu e ela o abraçou, também de olhos fechados.
        - Eu te amo, André. Desde sempre.
        Passando os braços em volta do pescoço dele, ela o trouxe mais para perto e o beijou.
        - Agora a gente pode ir.
- Agora eu não quero mais ir, Clarice. Quero ficar aqui com você.
Beijaram-se de novo, e de novo, e de novo, até se reaproximarem da costa. Largaram o barco num lugar qualquer e saíram a viver.

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