- Alô?
- Oi, eu sei que é muito tarde, mas você tem que me escutar.
É, eu sei que passa das 3 da manhã, mas é que eu bebi demais e arrumei coragem
pra dizer tudo que eu devo. Me escuta, não desliga, por favor. Droga, eu não
sei nem por onde começar, eu só queria mesmo dizer que te amo e que, depois
desses anos todos, eu continuo exageradamente apaixonada por você. É, eu sei
que eu nunca disse nada, mas você sempre deixou bem claro que éramos como
irmãos e eu sempre quis ser mais que isso, sempre quis ser mulher, ser boa pra
você. O que era impossível, olha o tipo de garota que se envolvia com você, era
do tipo perfeita, do tipo que te satisfazia de corpo e alma, muito mais corpo
do que alma, mas te satisfazia e eu ficava olhando, meio de canto, com o
coração destroçado, você se aventurando e no começo eu chorava com raiva de mim
mesma por não ser daquele jeito, mas acabei me acostumando, a gente se acomoda
a ser o que é, pra evitar sofrer mais do que já tá sofrendo. Pode parecer que
não faz muito sentido, que é só um efeito do álcool, aliás, dediquei um copo de
hi-fi a você, sei que é o seu drink favorito, eu não queria que nossa amizade
tomasse esse rumo, mas eu nunca consegui controlar muito bem minhas emoções,
então eu acabei me apaixonando, meti os pés pelas mãos e neguei até o fim que
todas aquelas indiretas eram pra você. Imaginei que você sentia ciúmes de mim,
imaginei que você tocaria a minha campainha não pra ir pra balada, mas pra me
chamar pra um jantar romântico, imaginei que você me abraçaria em noites chuvosas
e me mimaria até que eu caísse no sono e o velaria como acontece nos filmes,
sabe? Imaginei porque achei que esse era o jeito mais fácil disso se realizar e
vi que me tranquei e te tranquei no meu mundo de fantasias. Agora que eu
percebi isso, precisava te ligar e te contar. Você ainda tá aí? Você quer me
amar?
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